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Pedagogo é o 1° surdo de MS a conquistar doutorado

| CAMPO GRANDE NEWS


Adriano é o primeiro doutor surdo de MS. Foto: Divulgação

O pegagogo campo-grandense Adriano de Oliveira Gianotto, 38 anos, se tornou, na tarde de ontem, 11 de julho, o primeiro surdo a defender uma tese de doutorado em Mato Grosso do Sul. Adriano apresentou um trabalho voltado ao protagonismo dos surdos nas instituições de ensino, a partir de suas próprias dificuldades como pessoa com deficiência no ambiente acadêmico e um resgate histórico.

É por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras) que Adriano expõe as necessidades da comunidade surda, a qual ele pertence desde o nascimento e luta para que ela ganhe, cada vez mais, espaço na sociedade. E foi com sua linguagem e a ajuda de um interprete que concluiu o doutorado em Desenvolvimento Local na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), com o tema “O protagonismo da pessoa surda do ponto de vista do desenvolvimento local”.

Sob orientação do professor Dr. Heitor Romero Marques, a apresentação foi por videoconferência, uma banca composta por ouvintes e um intérprete. O trabalho traz um resgate histórico em relação à educação voltada para a comunidade surda, em Mato Grosso do Sul, propõe meios de inserção dos surdos nas instituições de ensino e evidencia como a inclusão social pode ser um fator que influência o desenvolvimento local.  Além de pesquisa bibliográfica, o estudo faz uma análise qualitativa a partir de entrevistas com surdos e ouvintes.

“Busquei analisar o processo de inclusão linguística e social da comunidade. Pretendi evidenciar o surdo, a nossa língua, a nossa cultura, a nossa identidade e as práticas educacionais e sociais que já estão sancionadas legalmente e que por não terem sido implementadas agravam a exclusão social dos surdos. No decorrer desta pesquisa, me deparei com situações que ‘desterritorializam’ linguisticamente o povo surdo, como a ausência de visibilidade, de protagonismo e de lutas pela valorização da língua e de seus usuários natos”, explicou Adriano.

De acordo com o novo doutor, a principal barreira enfrentada durante a trajetória acadêmica é a mesma que muitos surdos enfrentam no dia a dia: a invisibilidade e desinformação da sociedade sobre o cotidiano de pessoas surdas. “Eu já fui muito invisível no meio acadêmico, tive obstáculos das pessoas não me verem como capaz, das pessoas não acreditarem e tudo isso eu mostro dentro da minha pesquisa, como isso ocorre”, conta.

Por isso, a partir da pesquisa, Adriano pretende contribuir com a própria comunidade: “Eu quis trazer à tona esta temática e colocá-la em pauta para possíveis reflexões e ações que visam diminuir as barreiras sociais; ajudar com novas propostas nas legislações municipais; ampliar o desenvolvimento local, no sentido linguístico do termo, e promover o entrelaçamento linguístico entre surdos e ouvintes”, ressaltou o pesquisador.

De uma família que sempre o apoiou, Adriano sabe que o novo título pode ser uma inspiração para outros surdos, mas ele não quer só isso. “A primeira coisa que a gente tem que pensar é que a criança precisa ir para a escola, conhecer sua própria língua, conhecer a comunidade, as associações e fazer parte do mundo. Eu tive influência de intérpretes, professores surdos, e isso é uma caminhada importante”.

Para que fosse possível o desenvolvimento da pesquisa, a universidade deu suporte como acompanhamento com intérprete de Libras, tanto durante as aulas, quanto nas orientações e apresentações de trabalhos em eventos científicos.

Vencida essa nova batalha, Adriano agradece e diz que o próximo é continuar lutando. “Eu primeiramente sou muito grato a Deus por tudo. Tem muito ouvinte que fala que o surdo não tem cabeça. Mas eu sempre tive muito esforço, a minha família sempre me estimulou e eu sou muito grato a isso. Tivemos dificuldades de organizar o caminho, mas chegar ao doutorado já me deu muito orgulho, é uma forma de devolver à sociedade essa confiança. Agora quero mostrar que o conhecimento é para todos e é importante que as pessoas vejam que, nós surdos, somos capazes”.

Ainda de acordo como o recém-titulado doutor, para melhorar a inclusão de pessoas surdas, é necessário um trabalho em conjunto com ouvintes. “Nós somos 10 milhões de surdos no Brasil, nós temos nossa identidade, nossa língua e nossa cultura, mas, às vezes, nossa própria família não sabe a nossa língua. Nós precisamos nos relacionar, não é fácil viver separado, a gente precisa estar junto, a família precisa ter esse interesse. As pessoas precisam conhecer, ter empatia pelo mundo do surdo e caminhar junto”, finaliza. 


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