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vítimas do coronavírus

Nem a morte separou Luiz e Maria, que morreram de covid com 15 dias de diferença

| CAMPO GRANDE NEWS


Itamar, Luiz e Maria. Os três pegaram covid-19. Luiz e Maria não resistiram. (Foto: Arquivo Pessoal)

Num período de 15 dias, Itamar Rodrigo Amorim Buzzatta, 40 anos, perdeu o pai e a mãe por covid-19. O que pode ser considerado uma tragédia, só se consegue superar com a fé e é com ela que Itamar se sustenta e se fortalece todos os dias ao encarar a saudade.

Casados por 40 anos, Luiz Orlando Buzzata, 63 e Maria Amorim Buzzatta, 67, não conseguiram cumprir o voto de “até que a morte os separe” e dias depois do marido partir, foi a vez de Maria ir de encontro a Luiz.

Segundo Itamar, o primeiro a adoecer foi ele, que ficou internado por quatro dias e ao voltar pra casa, ficou em isolamento, no quarto, longe dos pais. Mas não adiantou, já que de noite, enquanto ele dormia, a mãe o visitava no quatro para verificar se ele estava com febre.

“Meu pai me contou isso só depois que minha mão internou”, disse, lembrando que enfatizava que os pais deveriam ficar longe dele até que cumprisse a quarentena e os pratos de comida deveriam ser deixados na porta, evitando contato. “Minha mãe pegou de mim, enquanto verificava minha febre, mas eu não via, porque estava dormindo à base de remédio”, relembra.

Maria foi internada em 28 de junho, um domingo e resistiu bravamente à covid, permanecendo internada em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) até 30 de julho, quando faleceu. Ela sucumbiu exatamente 15 dias depois de Luiz não resistir.

Internado em 6 de julho, ele também ficou em UTI, mas foram apenas nove dias entre a internação e o falecimento. Ele, no entanto, parece ter sido contaminado ao precisar de atendimento médico, mas que o primeiro exame, quando a esposa foi parar no hospital, deu negativo.

Ambos tinham ainda a saúde fragilizada, sendo que Luiz tinha doença cardiovascular crônica, hipertensão e diabetes. “Ele já vinha sofrendo”, relatou Itamar. Já a esposa, tinha diabetes, obesidade, doenças cardiovascular e neurológica crônicas, conforme boletim da SES (Secretaria de Estado de Saúde).

“Meus pais eram muito presentes com Deus. Meu pai, um homem de muita oração e meu conforto é que eles estão na presença de Deus. Meu pai tomava dez remédios todos os dias, já vinha mal, o rim estava ruim. Não é fácil”, revela Itamar.

Morando na casa dos pais enquanto a sua está em reforma, o filho afirma que evita ir até lá e ao sair do trabalho, acaba indo para a casa da namorada. No entanto, diz estar cumprindo, junto com os outros dois irmãos, promessa feita aos pais, ambos preocupados com os animais e as plantas que tinham.

“Antes de serem internados eles cobravam muito pra cuidar dos animais e plantas da chácara deles. Até hoje estamos cuidando de tudo certinho”, ressalta.

Depois que o pai morreu, em 15 de julho e Itamar já estava liberado do isolamento, ele pediu para ver a mãe na UTI. Lá, ela estava em coma induzido para poder usar o respirador. Mas no dia em que o filho foi visitá-la, os médicos haviam retirado o tubo, porque Maria havia apresentado melhoras.

“Depois de terem tirado o tubo ela não havia acordado ainda, mas aí eu a chamei e ela acordou, na frente da enfermeira e eu falei com ela, que a amava e ela disse que me amava também”, contou.

Um dia depois, ela sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral), se recuperou e melhorou. “O médico ainda me disse que ela estava se recuperando bem e eu confiante de que ela ia voltar pra casa, certamente com sequela, mas ia voltar”, relembra Itamar. Maria, no entanto, sofreu uma parada cardiorrespiratória e não resistiu.

Negação – Para Itamar, apesar dos cuidados e alertas dado aos pais para que não se aproximassem dele, o contágio foi inevitável. Mesmo o pai tendo se infectado – ao que parece – durante uma consulta médica, ambos não acreditavam que a covid-19 era tão séria como diziam.

Por isso Maria insistiu em cuidar de Itamar, mesmo com ele dizendo para se afastar. “Tanto um quanto o outro não acreditavam muito na doença. Quando eu fiquei em isolamento e pedia para ficarem longe, eles falavam que Deus que vai proteger. É complicado. E hoje em dia tem muita gente que ainda acha que a doença é brincadeira. Mas ela existe e mata!”, alerta Itamar.

Para ele, apesar do “baque” de perder os pais em 15 dias de diferença um do outro, o que marca na memória é o legado de honestidade dos dois. “Meu pai foi justo e honesto a vida toda. Ele me ensinou a ser homem. Nunca teve nenhum problema com a justiça e me cobrava em ser bom caráter”, enfatiza.

Confiando em Deus, Itamar afirma que chegou onde chegou por causa do exemplo dos seus pais, que o incentivaram a lutar para ser diferente.

“Meu pai foi carreteiro a vida toda. Aos 14 anos eu disse que ia seguir a profissão dele e ele disse que não, por causa da humilhação que se passa na estrada. E hoje eu tenho outra profissão, sou jornalista e estou onde estou por causa dele”, comemora. Maria e Luiz deixam três filhos e 12 netos. 


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