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Caarapó

Sem prevenção, crack avança em Caarapó

Autoridades apontam para uma possível epidemia deste subproduto da cocaína

| CAARAPONEWS


Por André Nezzi

Na esteira do despreparo do poder público e da sociedade em relação à prevenção, à repressão e ao tratamento dos efeitos da droga, o consumo do crack avança com desenvoltura no município de Caarapó e faz multiplicar relatos de sua gravidade.
 

Autoridades apontam para uma possível epidemia deste subproduto da cocaína, que provoca dependência agressiva, exclusão social do usuário e desagregação familiar, além de estimular a criminalidade.
  Conforme dados da Polícia, desde a chegada da droga ao município, os índices elevados de homicídios e de furtos praticados por jovens coincidem com o aumento das apreensões de crack.
  A reportagem ouviu o relato de um usuário da droga, “X” - que terá seu nome preservado. De acordo com ele, o crack chegou a Caarapó no ano de 2002 e pode ser adquirido por apenas R$ 5. “Tem ‘parada’ de 5, 10 e R$ 20”, afirma o viciado, que relatou ser usuário há cerca de oito anos.
  Segundo ”X”, hoje, existem pelo menos onze “bocas de fumos” ativas na cidade. “Em todos os bairros tem pelo menos uma “boca”, isso sem contar os ambulantes – vendedores de crack sem ponto fixo.
  “X” diz que o efeito do crack é dez vezes maior que o da cocaína e que ao fazer uso da droga uma vez, a pessoa já pode se considerar viciada. “Já cheguei a ficar quatro dias seguidos usando crack, fumei umas 80 pedras, quanto mais você fuma, mais você quer”, afirmou o dependente, que disse também ter muita sede quando faz uso da substância.
  “X” já ficou internado por 68 dias em uma clinica para dependentes químicos. “Quando voltei à primeira coisa que fiz foi comprar uma “parada”, a vontade e o desejo pela droga eram incontroláveis”.
  Ele afirma que hoje a maioria dos usuários de drogas faz uso do crack. “Ninguém mais quer cocaína, a pedra é mais barata e mais forte”, observa. ”X” revela que muitos usuários sem dinheiro para adquirir a droga passam a furtar ou trabalhar para os donos da “boca”, revendendo o entorpecente.
  “E não é só pobre que fuma crack não, existem muitos ‘filhinhos de papai’ em Caarapó fazendo uso, esses geralmente compram de caixa fechada, no valor de R$ 200”, alerta.
  “X” diz que nunca furtou ou roubou para usar crack, mas já chegou a deixar a roupa do corpo nas “bocas”. “Quando não tenho nada, eu peço dinheiro para os amigos”.
  Arrependido por ter experimentado o crack, ele diz estar tentando pelo menos diminuir o consumo e com lágrimas nos olhos desabafa: “Maldito é o homem que experimentou essa droga”.
  Para o Delegado de Polícia, Humberto Perez Lima, o crack se difere das outras drogas pela quantidade de vezes que a pessoa usa para se tornar viciado. “Basta à pessoa fazer uso uma única vez para se tornar viciado, além de que o efeito da droga é muito rápido e induz a pessoa a consumir em grande quantidade”.
  Lima credita o grande número de usuários de crack em Caarapó a uma falta de percepção por falta das autoridades. “Tínhamos que ter adotado políticas de prevenção logo quando a gente percebeu que a droga havia chegado à cidade, a preocupação com o crack se deu muito tardiamente”, afirma o delegado, observando que, além do âmbito da segurança pública, o crack também deve ser combatido pela Secretaria de Educação e a Secretaria de Saúde.
  “A Secretaria de Educação precisa ser mais ativa nesse sentido e tomar a iniciativa com campanhas de prevenção nas escolas, pois os nossos jovens passam por lá. Já a Secretária de Saúde precisa de alguma maneira encontrar uma solução para oferecer algum tratamento adequado para as pessoas que pretendem largar o vício”, finalizou.
  Os sintomas - O comportamento do usuário de crack, segundo o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, muda rápido e intensamente. Ele vai mal na escola (ou a abandona), tem um sono altamente perturbado, emagrece muito, isola-se dos outros e começa a apresentar sintomas de paranóia. Acha que está sendo seguido ou que caiu alguma pedra de crack no chão. Também fica apático, introvertido. A cocaína age ainda sobre as pupilas dos olhos, podendo dilatá-las.
    O tratamento - Depende do estado de cada paciente. Vai do tratamento ambulatorial até a internação domiciliar ou em clínicas especializadas. A sua principal dificuldade, segundo o dr. Ronaldo Laranjeira, é a “fissura”, a vontade que o usuário sente de usar a droga. A fase inicial é a mais difícil, e dura, geralmente, a primeira semana. O jovem só é considerado totalmente reabilitado depois de dois anos de abstinência.    

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