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Disparos, agrotóxicos e disputa por terra elevam tensão em área indígena de Caarapó

| CAARAPONEWS COM CG NEWS


Proximidade de tratores atrai a curiosidade das crianças indígenas (Foto: Comunidade Guyraroka)... veja mais em https://www.campograndenews.com.br/meio-ambiente/vomito-dor-coceira-banho-de-veneno-em-aldeia-nao-poupa-12-bebes-e-37-criancas

Na madrugada desta segunda-feira (29), por volta das 4h50, equipes da Polícia Militar que realizavam patrulhamento ostensivo nas proximidades da Fazenda Ipuitã e da Terra Indígena Guyraroká, em Caarapó (MS), ouviram cerca de três disparos de arma de fogo vindos da área indígena, próximo à divisa com uma propriedade rural.

De acordo com o boletim de ocorrência, a operação tinha como objetivo prevenir possíveis conflitos entre indígenas e produtores rurais da região. Após os disparos, os policiais lançaram um drone para monitoramento aéreo e identificaram um indivíduo, aparentemente indígena, usando roupas escuras e portando uma arma de fogo.

Segundo os militares, o suspeito chegou a disparar contra o drone, obrigando a equipe a recolher o equipamento para evitar danos. O caso foi registrado e encaminhado à autoridade policial judiciária para investigação.

Comunidade relata efeitos de agrotóxicos
A tensão na região não se limita ao risco de confrontos armados. Indígenas guarani-kaiowá da Terra Indígena Guyraroká denunciaram à imprensa da capital os efeitos de agrotóxicos aplicados por aeronaves agrícolas nas lavouras vizinhas. Segundo os relatos, quando o avião pulverizador sobrevoa a área, os moradores da aldeia sentem rapidamente os efeitos do veneno. Os sintomas incluem dores de cabeça e no estômago, vômitos, diarreia e coceira intensa na pele, principalmente nos olhos.

Os relatos indicam que os impactos atingem as 120 pessoas da comunidade, mas são mais severos entre crianças, idosos e gestantes. Atualmente, a aldeia abriga 12 bebês, 37 crianças, quatro gestantes e seis idosos.

“A gente não consegue plantar porque perde tudo o que a terra produz”, afirmou um morador que vive há 26 anos na aldeia. Ele preferiu não se identificar, temendo represálias de produtores da região. O mesmo indígena relatou que, até 2018, a área era utilizada principalmente para pastagem de gado, sem pulverizações. Com a expansão do cultivo de soja e milho a partir de 2019, a aplicação aérea de herbicidas teria se tornado frequente, inviabilizando a produção de alimentos tradicionais como milho, amendoim, abóbora, melancia, mandioca e arroz.

No dia 21 de setembro, um grupo de indígenas chegou a ocupar a Fazenda Ipuitã em protesto contra o uso intensivo de agrotóxicos. Eles afirmam que não buscam ampliar a terra indígena, mas exigem o cumprimento da demarcação já prevista.

Operação apreendeu agrotóxicos contrabandeados
Em julho deste ano, uma operação conjunta da Força Nacional e do Ibama, coordenada pelo Ministério Público Federal em Dourados, apreendeu mais de 200 quilos de agrotóxicos contrabandeados do Paraguai. A carga estava escondida em uma área de mata dentro de terras indígenas. De acordo com a investigação, o material era armazenado em regiões de difícil acesso para dificultar ações de fiscalização. Um dos esconderijos só foi alcançado com o auxílio de um trator.

Impasse jurídico mantém área sob disputa
A Terra Indígena Guyraroká foi reconhecida como de posse tradicional do povo guarani-kaiowá pelo Ministério da Justiça em 2009. No entanto, em 2014, uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) anulou o reconhecimento dos 11 mil hectares reivindicados pela comunidade. Em 2018, os indígenas entraram com ação rescisória contra essa decisão e aguardam novo julgamento.

Além disso, o Ministério Público Federal ajuizou, em 2013, uma ação contra a União e a Funai, cobrando R$ 170 milhões por danos morais e materiais. O processo busca reparação pelos impactos causados à comunidade, que foi expulsa de seu território há cerca de 100 anos, durante o processo de colonização de Mato Grosso do Sul. O caso ainda não teve desfecho, e o impasse contribui para o clima de insegurança e tensão entre os moradores indígenas e produtores rurais da região.

Agrotóxico contrabandeado estava escondido em região de mata. (Foto: Divulgação).
Escola da comunidade fica a menos de dez metros da lavoura. (Foto: Ascom/MPF)
Avião agrícola sobre aldeia indígena em Caarapó

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