Em entrevista, prefeita Lurdes se omite de falar sobre a paralisação de cirurgias no Hospital e de outros projetos polêmicos
| CAARAPONEWS
Em entrevista concedida a um podcast ligado a um dos veículos de comunicação criados durante a atual gestão municipal — sustentados majoritariamente por recursos de publicidade oficial da Prefeitura Municipal de Caarapó — a prefeita Maria de Lourdes Portugal (PL) deixou de abordar o tema central que motivou o debate: os cortes implementados na área da Saúde que impactaram diretamente o funcionamento do Hospital São Mateus.
Entre as medidas adotadas pela administração municipal está a interrupção das cirurgias ortopédicas realizadas na unidade hospitalar, anteriormente conduzidas pelo ortopedista Franseg Sacoman, além da suspensão de cirurgias eletivas, como procedimentos de hérnia e vasectomia, realizados pelo médico Silvio Ueda. Também foi encerrado o vínculo com o médico anestesista especialista que atuava nas cirurgias, inclusive em cesarianas classificadas como de maior risco.
Com isso, procedimentos ortopédicos considerados de baixa complexidade — que até então eram realizados no Hospital São Mateus, com muitas vezes o paciente tendo alta no mesmo dia — passaram a depender da disponibilidade de vagas para encaminhamento a Dourados ou outras cidades. A mesma situação se aplica às cirurgias de hérnia e vasectomia, que deixaram de ser ofertadas no município.
Ao ser questionada sobre o tema, a prefeita afirmou apenas que o atendimento ortopédico continua sendo realizado no PAM, sem esclarecer que o município deixou de executar cirurgias ortopédicas localmente. Também não foi mencionado que houve redução na oferta desse atendimento, que passou de três dias semanais pelo ortopedista Franserg Sacoman para apenas um dia, além de um atendimento mensal realizado por profissional credenciado de fora do município, volume considerado insuficiente para atender à demanda existente.
Na prática, os atendimentos passaram a se restringir à avaliação clínica dos pacientes e à inserção de pedidos no sistema de regulação para encaminhamento cirúrgico, uma vez que os procedimentos foram retirados da rotina do Hospital São Mateus sob a justificativa de contenção de despesas.
Paralelamente aos cortes na área da Saúde, a Prefeitura de Caarapó anunciou, nesta semana, a aquisição de playgrounds no valor superior a R$ 600 mil e a compra de concreto destinado a serviços da Secretaria Municipal de Obras, com custo aproximado de R$ 1,5 milhão. Soma-se a isso o remanejamento de cerca de R$ 1 milhão do orçamento da Saúde para outras pastas, realizado na véspera do Natal, contemplando, entre outros itens, a compra de material de consumo para a Educação e o pagamento de tributos da Secretaria Municipal de Administração e Governo.
Outros assuntos polêmicos foram ignorados
Durante a entrevista, a prefeita também não foi questionada — nem apresentou esclarecimentos espontâneos — sobre o processo licitatório da coleta de lixo, que foi suspenso após intervenção do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS), diante da existência de indícios de direcionamento apontados pelo órgão de controle.
Veto a sua própria Lei
Outro assunto ausente da entrevista foi o projeto de lei da reforma administrativa. A proposta, encaminhada pela própria prefeita ao Poder Legislativo, chegou a ser aprovada pela Câmara Municipal e, posteriormente, vetada pelo próprio Executivo sob a justificativa de conter inconsistências. O texto previa a criação de 13 cargos comissionados e a ampliação da folha de pagamento municipal em quase R$ 1 milhão a partir de 2026, fato que gerou repercussão negativa em âmbito estadual.
Desvio de foco
A condução da entrevista também direcionou parte significativa do debate a críticas ao ex-prefeito André Nezzi, que atualmente atua na área de comunicação e tem divulgado apontamentos sobre falhas administrativas da atual gestão. Os temas relacionados à execução orçamentária, à política de saúde pública e às decisões administrativas recentes, no entanto, permaneceram sem esclarecimentos objetivos.
Silêncio sobre Lei inconstitucional
Por fim, a prefeita também não se manifestou sobre a lei sancionada recentemente por sua gestão que autoriza a concessão de gratificações de até 100% do vencimento base a determinados servidores municipais, sem a definição prévia de critérios objetivos. Situação semelhante foi registrada no município de Sidrolândia, onde norma com conteúdo praticamente idêntico foi invalidada e declarada inconstitucional pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS).



