Por que gigante Raízen precisou pedir recuperação extrajudicial?
| COM INFORMAçõES DO UOL
A Raízen, controlada pela brasileira Cosan e pela britânica Shell, aumentou o endividamento com apostas na aquisição de empresas e novos projetos de energia que não tiveram o retorno planejado. O crescimento rápido das dívidas para financiar essas políticas levou a companhia a buscar, sem sucesso, alternativas para renegociar prazos e taxas dos compromissos, o que levou ao pedido de recuperação extrajudicial.
O que aconteceu
Raízen apresentou pedido de recuperação extrajudicial com acordo para dívidas de R$ 65,1 bilhões. A empresa de energia é controlada pela Cosan e pela Shell e atua no setor de energia, produzindo e distribuindo combustíveis. A companhia brasileira de açúcar e etanol e a petroleira britânica possuem cada uma 44% das ações com direito a voto da Raízen. Outros 12% estão no mercado, em ações negociadas por investidores e acionistas minoritários.
Companhia é uma das maiores corporações do Brasil. A Raízen emprega mais de 45 mil colaboradores e tem uma rede de 15 mil parceiros de negócios espalhados pelo país e é dona de 35 usinas de açúcar, etanol e bioenergia, e de 1,3 milhão de hectares de área agrícola cultivada. Também faz parte do grupo uma rede de 8 mil postos com a bandeira Shell no Brasil.
Empresa já perdeu R$ 19,8 bilhões em três trimestres. As perdas ocorreram em meio à queda da receita nesse período, que recuou de R$ 197,5 bilhões para R$ 174,5 bilhões.
Dívida líquida cresceu 43,5%. No último balanço trimestral, a Raízen informou que o endividamento líquido, ou seja, descontados valores a receber, atingiu R$ 55,3 bilhões, ante R$ 38,6 bilhões um ano antes. Ela passou a representar 5,3 vezes o total do lucro operacional, medido pelo Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização).
Agência de classificação de risco alertou para piora do balanço. Neste ano, a Raízen sofreu redução da qualidade de crédito na avaliação das principais agências de classificação de risco. Fitch, S&P Global e Moody's Global tiraram o grau de investimento da companhia, justificando a decisão pela frustração do aporte de capital esperado pelos acionistas Shell e Cosan, em um ambiente operacional menos favorável para o açúcar e o etanol, além de uma liquidez pressionada pelo consumo recorrente de caixa e por amortizações relevantes no curto prazo.
Shell aceitou aportar capital, mas queria que Cosan acompanhasse. Algo que a brasileira não conseguiu fazer. Pela tentativa de acordo, a petroleira britânica injetaria R$ 3,5 bilhões na capitalização da joint venture, mas cobrou paridade da sócia local.
Crise financeira vem desde 2024. Naquele ano, o então presidente deixou a companhia, mesmo período em que a empresa começou a negociar a venda de ativos de açúcar e etanol e de geração de energia distribuída, considerados não estratégicos para o grupo.
Grupo colocou bilhões de reais em outros projetos. A Raízen se endividou para alocar recursos em novos projetos de energia limpa que somaram mais de R$ 11 bilhões em novas plantas de etanol de segunda geração. Além disso, sua controladora, a Cosan, aumentou o nível de endividamento para assumir uma participação acionária na Vale, aposta que custou cerca de R$ 20 bilhões por 6,5% da mineradora e que diminuiu a capacidade financeira de apoiar reveses na controlada.
Raízen cita juros elevados e economia argentina como motivos para recuperação extrajudicial. Na petição inicial do processo, a empresa conta que implementou estratégia de expansão para se consolidar como produtor global de combustíveis renováveis. Isso exigiu "investimentos expressivos" em aquisições estratégicas e na implantação de plantas de biocombustíveis avançados, cujas decisões foram tomadas em "contexto macroeconômico substancialmente mais favorável do que o atual". "Desde então, verificou-se relevante deterioração das condições econômicas no Brasil e em outros países em que o Grupo Raízen atua, notadamente na Argentina, em meio à escalada nacional e global das taxas de juros e ao agravamento dos indicadores macroeconômicos", diz a empresa no documento, citando ainda o aumento da taxa básica de juros Selic no Brasil.
"A Raízen seguiu o modelo do grupo Cosan, realizando grandes aquisições no segmento do açúcar/cana/álcool de ativos de qualidade ao longo dos últimos anos, mas se utilizando de capital de terceiros. Os juros subiram de patamar e, com a estrutura de capital alavancada, a empresa passou a registrar a registrar forte pressão de despesas financeiras nos resultados, e junto com este movimento, surgiram outros problemas, como queimadas, queda de preço da cana, pressão na competição nos anos anteriores com a concorrência de bandeira branca na na distribuição de combustíveis".
- Pedro Galdi, analista CNPI do AGF.
* Raízen era sócia da mexicana Femsa na rede de varejo Oxxo. Um dos novos negócios do grupo e fora de sua atividade original foi no varejo. Até setembro do ano passado, a Raízen liderava a expansão das mais de 600 lojas da marca mexicana no Brasil. Em meio às negociações para reforçar o capital, a brasileira passou sua parte aos mexicanos.
"A Raízen, historicamente, possuía posição de endividamento relevante, porém a alavancagem era controlada. Porém, uma combinação de fatores começou a pesar sobre a companhia, principalmente desde a safra 2024/25: aumento de despesas financeiras, condições climáticas adversas, investimentos em segmentos não principais, perdas em estoque de distribuição e queima de caixa"
- XP, em relatório assinado pelas analistas Camilla Dolle, Mayara Rodrigues e Maria Paolantoni.




