Canetas emagrecedoras do Paraguai viram nova frente do contrabando em MS
Apreensões já somam R$ 4,5 milhões neste ano, segundo a Receita Federal
| BRUNA MARQUES / CAMPO GRANDE NEWS
As canetas emagrecedoras entraram de vez na rota do contrabando em Mato Grosso do Sul. Antes associada principalmente a cigarros, eletrônicos e perfumes, a fronteira com o Paraguai passou a registrar aumento expressivo na entrada irregular de medicamentos como tirzepatida, semaglutida e produtos similares, usados para emagrecimento.
Dados da Receita Federal mostram que as apreensões desse tipo de medicamento deram um salto nos últimos anos. Em 2024, o valor estimado dos produtos apreendidos foi de R$ 750 mil. Em 2025, o montante triplicou e chegou a R$ 2,4 milhões. Em 2026, até maio, as apreensões já somam R$ 4,5 milhões.
Segundo Henry Tamashiro de Oliveira, delegado-adjunto da Receita Federal em Campo Grande, o crescimento acendeu alerta na fiscalização. Ele afirma que as apreensões se espalham por todo o Estado, mas têm maior concentração na região de Dourados, uma das principais rotas ligadas à fronteira com o Paraguai.
A PRF (Polícia Rodoviária Federal) também passou a registrar esse tipo de ocorrência de forma específica no Estado. Os primeiros registros são de junho de 2025. De junho a dezembro do ano passado, foram apreendidas 5.281 unidades. Entre janeiro e março deste ano, outras 4.646 unidades foram retiradas de circulação. No total, foram 9.927 canetas emagrecedoras apreendidas pela PRF em Mato Grosso do Sul no período.
As apreensões ocorrem em diferentes pontos do Estado, mas a Receita Federal aponta maior concentração na região de Dourados. A localização ajuda a explicar o avanço desse tipo de contrabando. Mato Grosso do Sul tem extensa área de fronteira com o Paraguai, país onde esses medicamentos são encontrados com mais facilidade e preços menores. Depois de entrar irregularmente no Brasil, a carga pode seguir por rodovias para outros estados.
Questionado sobre os principais destinos dos medicamentos após a entrada por Mato Grosso do Sul, o delegado-adjunto resumiu: “Para todo o Brasil'.
O perfil das ocorrências mostra que não há apenas grandes cargas. Segundo a PRF, a maior parte dos flagrantes envolve volumes pequenos ou médios, normalmente entre uma e 200 unidades. As canetas são transportadas em veículos particulares, transportadoras, encomendas enviadas pelos Correios e cargas misturadas a outros produtos importados, como eletrônicos e perfumes.
Também há casos em que os medicamentos são escondidos em compartimentos ocultos de veículos. As equipes de fiscalização já encontraram produtos em painéis, para-choques, áreas próximas ao estepe e outros espaços usados para tentar driblar a abordagem policial.
A Receita Federal afirma que intensificou a fiscalização desse tipo de produto em todo o Estado. A PRF informou que, na maioria dos casos, as ocorrências são encaminhadas à Receita, já que os volumes costumam ser menores. O enquadramento inicial geralmente é de contrabando, por se tratar de produto de entrada proibida no país. Dependendo da investigação, o MP (Ministério Público) pode avaliar se o caso deve evoluir para crime contra a saúde pública.
Contrabando usa diferentes tipos de “mulas' - A suspeita de uso de estudantes brasileiros de medicina no Paraguai para transportar canetas emagrecedoras, apontada em ocorrências em outras regiões de fronteira, ainda não aparece de forma mensurada nos dados locais. A Receita Federal informou que há muitas pessoas transportando medicamentos desse tipo, mas que, em princípio, não há informação específica sobre estudantes de medicina.
A PRF também afirmou que não consegue filtrar esse detalhe em seus sistemas, porque os trâmites processuais ficam sob responsabilidade de outros órgãos.
Mesmo sem esse recorte confirmado, a dinâmica da fronteira favorece o avanço da prática. O produto é comprado no Paraguai, cruza para o lado brasileiro em pequenas remessas ou escondido em veículos e depois é redistribuído.
A entrada desses produtos no Brasil não é livre, mesmo em pequenas quantidades. Segundo a Receita Federal, só podem ingressar medicamentos aprovados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), para uso próprio, sem encomenda ou revenda, em quantidade compatível com receita médica. A prescrição deve corresponder, no máximo, a três meses de tratamento.
A PRF alerta que a entrada irregular das canetas representa risco à saúde pública. Além de não terem registro nos órgãos reguladores brasileiros, os medicamentos podem ser transportados sem controle adequado de temperatura, condição necessária para preservar segurança, eficácia e qualidade. Sem essa garantia, o consumidor não sabe exatamente o que está comprando, como o produto foi armazenado nem se ele mantém as características informadas na embalagem.
O avanço das apreensões mostra que as canetas emagrecedoras deixaram de ser um produto eventual nas abordagens e passaram a integrar a lista de mercadorias visadas pelo comércio ilegal na fronteira. Em Mato Grosso do Sul, a rota já está no radar da Receita Federal e da PRF.
Flagrantes expõem rota e comércio irregular - No dia 14 de maio, equipes da PRF apreenderam 1.641 medicamentos emagrecedores durante fiscalização na BR-163, em Coxim. A abordagem foi feita em um Jeep Commander, com apoio do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais).
Segundo a corporação, foram encontradas 1.598 ampolas e 66 canetas usadas para emagrecimento, além de 426 anabolizantes de origem estrangeira. O motorista e uma passageira foram presos e encaminhados à PF (Polícia Federal), em Campo Grande.
No mesmo dia, uma clínica de Campo Grande foi alvo de outra operação, que terminou com a apreensão de 1.294 frascos vencidos de medicamentos para emagrecimento. Os produtos estavam armazenados junto de medicamentos dentro do prazo de validade.
A ação foi realizada por equipes do Procon-MS (Secretaria-Executiva de Orientação e Defesa do Consumidor), Decon (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes contra as Relações de Consumo), CRM-MS (Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul) e Vigilância Sanitária, após denúncia sobre a origem dos medicamentos usados em procedimentos estéticos.
Os flagrantes reforçam o alerta sobre o avanço do comércio ilegal de medicamentos no Estado, uma das portas de entrada do contrabando no país pela fronteira com o Paraguai. Estudo do IDESF (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras) aponta que o tráfico de medicamentos ilegais pode gerar margem de lucro de até 415% para grupos criminosos.




