Bernal foi da ‘glória ao infern0’ após romper ciclo e ser eleito prefeito de Campo Grande
| INVESTIGAMS/WENDELL REIS
Ex-prefeito sofreu três infartos e não resistiu. Ele estava preso desde março.
A música do cantor Raul Seixas, Cowboy Fora da Lei, lembra a história, nada feliz, do ex-prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, morto na madrugada desta segunda-feira, aos 60 anos.
“Mamãe não quero ser prefeito, pode ser que eu seja eleito, e alguém pode querer me assassinar', diz o começo da música. O ex-prefeito, de fato, faleceu um pouco após vencer e morreu depois de ser preso por assassinar um homem.
O ex-prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, faleceu na madrugada desta segunda-feira, após sofrer três paradas cardíacas na Santa Casa de Campo Grande, onde estava internado desde o dia 1° de julho.
Bernal foi vereador, deputado estadual e prefeito de Campo Grande, eleito em 2012, quando rompeu uma hegemonia de mais de 20 anos do MDB.
A gestão foi bastante turbulenta e Bernal foi o primeiro prefeito cassado da história da Capital. Voltou ao cargo e concluiu o restante do mandato. Depois, ainda foi eleito deputado federal e não assumiu por conta da condenação.
Primeira e única entrevista após assassinato
No dia 24 de março, Bernal foi preso após assassinar um servidor. A reportagem foi a única que conseguiu contato com ele, que por telefone, já na delegacia, para se entregar, alegou legítima defesa.
O ex-prefeito disse à reportagem que três homens arrombaram a casa dele pela terceira vez, mas que desta vez foi avisado e reagiu após tentativa de agressão.
“Desta vez, fui avisado. Estavam arrombando a porta da sala. Quando me viram, tentaram me agredir e tive que me defender', alegou.
A reportagem indagou o ex-prefeito se não tinha conhecimento do leilão e ele disse que não. Além disso, pontuou que não tinha oficial de justiça com os homens que ele alega ter invadido a residência.
Bernal afirma que registrou boletim de ocorrência das outras vezes que teve o imóvel arrombado.
Doze anos da cassação: última entrevista foi dada doze dias antes do assassinato
Doze dias antes, ele procurou a reportagem para lembrar que estava completando 12 anos da sua cassação.
A sugestão levou à uma reportagem especial, publicada aqui em março:
Doze anos se passaram, dois vereadores já faleceram e processo se arrasta na primeira instância. Muitos protagonistas dos anos de guerra e da única cassação da história de Campo Grande encerraram a vida pública e nada aconteceu até o momento.
Há doze anos, Campo Grande assistia a primeira cassação de um prefeito na história da cidade. Após meses de muitas brigas, Alcides Bernal (PP), era cassado com voto de 23 vereadores, por nove denúncias diferentes.
Doze anos se passaram e a maioria dos protagonistas da cassação, incluindo Bernal e o substituto, o vice Gilmar Olarte, estão fora da vida pública, enquanto o processo se arrasta na primeira instância.
Dos 23 que votaram a favor da cassação, apenas cinco têm mandato atualmente: Carlão, Otávio Trad, Delei Pinheiro, Dr. Jamal e Coringa. Outros dois vereadores faleceram: Édson Shimabukuro e Alceu Bueno.
Dos seis que votaram contra, apenas dois continuam com mandato: Luiza Ribeiro e Zeca do PT.
Bernal voltou ao poder no dia 27 de agosto de 2015 para concluir o mandato até 2016, mas não conseguiu assegurar a reeleição. Depois disso, foi eleito deputado federal, mas como estava inelegível, não assumiu o mandato.
Gilmar Olarte teve uma vida ainda mais difícil. Cumpre pena até hoje em decorrência daquela eleição. Foi condenado por usar cheques de fieis da igreja que era pastor para fazer agiotagem para conseguir dinheiro para campanha.
Em 2018, por maioria, a 1ª Câmara Cível do TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) restituiu os efeitos do decreto que cassou o mandato de Bernal, o mesmo que fez ele voltar ao cargo em 2015. Com isso, Bernal ficou inelegível.
Em março do no passado, o juiz da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos de Campo Grande, Ariovaldo Nantes Corrêa, aplicou multa de R$ 1.750.000,00 por danos coletivos a políticos e empresários envolvidos na cassação do mandato de Alcides Bernal (PP).
Foram condenados por dano moral coletivo, totalizando R$ 1,7 milhão: André Luiz Scaff, Carlos Eduardo Belineti Naegele, Gilmar Antunes Olarte, Edil Afonso Albuquerque, Jamal Mohamed Salem, João Alberto Krampre Amorim, João Roberto Baird, José Airton Saraiva, espólio de José Alceu Padilha Bueno, Mário César Oliveira da Fonseca e Paulo Siufi Neto. No entendimento do juiz, eles participaram diretamente da trama para cassação, o que justifica a condenação e multa por improbidade administrativa.
Outros onze foram inocentados absolvidos: André Puccinelli (MDB), ex-prefeito e ex-governador; Nélson Trad Filho (PSD), senador da República e ex-prefeito da Capital; Flávio César Mendes de Oliveira (PSDB), ex-vereador e secretário estadual de Fazenda; Carlos Augusto Borges, o Carlão (PSB), vereador e ex-presidente da Câmara Municipal; Eduardo Pereira Romero (SD), ex-vereador; Gilmar Nery de Souza, Gilmar da Cruz (PSD), vereador; João Batista da Rocha (PP), ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal; Otávio Augusto Trad Martins (PSD), vereador; Waldecy Batista Nunes, o Chocolate; Raimundo Nonato; Luiz Pedro Gomes Guimarães.
Em setembro do ano passado, a justiça absolveu Bernal de uma das principais acusações que levaram à cassação: contratação entre a prefeitura e a empresa Mega Serv, firmado em caráter emergencial e de um segundo contrato, celebrado por pregão presencial.
Votaram pela cassação:
Wanderley Cabeludo, Carla Sthepanini, Edil Albuquerque, Mário César, Paulo Siufi, Coringa, Chiquinho Teles, Eduardo Romero, Delei Pinheiro, Flávio César, Otávio Trad, Chocolate, Dr. Jamal, Grazielle Machado, João Rocha, Rose Modesto, Alceu Bueno, Airton Saraiva, Gilmar Cruz, Carlão, Juliana Zorzo, Edson Shimabukuro, Elizeu Dionízio.
Votaram contra a cassação:
José Orcírio dos Santos (Zeca do PT), Alex do PT, Airton Araújo, Cazuza, Paulo Pedra e Luiza Ribeiro.




