GAECO: ‘Precisa desse dinheiro hojeeeeee’; decisão que mandou prender secretária aponta propina ‘dentro da merenda’
| INVESTIGAMS/WENDELL REIS
‘A decisão judicial que autorizou a Operação Barattieri, em Água Clara, aponta que a secretária municipal de Educação, Adriana Rosimeire Pastori Fini, se beneficiava de dinheiro desviado em contratações da própria pasta.
O documento, assinado em 1º de setembro pelo juiz Rodrigo Pedrini Marcos, de Três Lagoas, decretou a prisão preventiva dela, do empresário Humberto de Lima Marques e das servidoras Ana Carla Benette e Jânia Alfato Socorro. Uma quinta investigada, Valéria Bariani dos Santos, teve apenas busca autorizada. Os mandados foram cumpridos em 14 de setembro.
Segundo a decisão, a empresa do empresário vencia licitações ou era contratada diretamente pela Secretaria de Educação, em processos conduzidos pelas próprias servidoras investigadas. As compras eram superfaturadas ou registradas sem que os produtos fossem entregues, e a diferença voltava em espécie para as funcionárias.
O juiz cita mensagens de outubro de 2023 em que Jânia cobra pagamento do empresário: “Adriana precisa desse dinheiro hojeeeeeeeeeee” e “Carla fez a ordem e está dentro da merenda”.
A quebra de sigilo bancário, segundo o documento, apontou pagamentos diretos a servidores públicos e movimentação intensa com a empresa Bariani e Serconeke LTDA, o que, para o magistrado, levanta suspeita de lavagem de dinheiro.
A investigação é desdobramento da Operação Malebolge, de fevereiro de 2025. O juiz negou o pedido do Ministério Público para compartilhar as provas com outros órgãos, por falta de indicação concreta de quais procedimentos as receberiam.
Os investigados respondem por associação criminosa, peculato, corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
O termo “Barattieri', faz referência à Divina Comédia, obra clássica de Dante Alighieri. No Inferno descrito pelo autor, os “Barattieri' são aqueles que negociam o exercício de funções públicas em troca de vantagens indevidas.
Operação Malebolge
O Ministério Público, por intermédio do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado – GAECO, apresentou denúncia contra dez alvos da Operação Malebolge, realizada no dia 18 de fevereiro de 2025.
Segundo a denúncia, de 2022 a 2025, no Município de Água Clara, os denunciados Adão Celestino Fernandes, Adriana Rosimeire Pastori Fini, Ana Carla Benette, Denise Rodrigues Medis, Ícaro Luiz Almeida Nascimento, Jânja Alfaro Socorro, Kamilla Zaine dos Reis Santos Oliveira, Leonardo Antônio Siqueira Machado, Mauro Mayer da Silva e Valmir Deuzébio, “livres e conscientes e cada qual a seu modo, integraram pessoalmente uma organização criminosa, estruturalmente ordenada e com divisão, ainda que informal, de tarefas, com o objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagens pecuniárias, mediante a prática de infrações penais diversas, dentre as quais, peculatos, fraudes a licitações e contratos públicos e corrupção ativa e passiva'.
As denunciadas ANA CARLA BENETTE, JÂNIA ALFARO SOCORRO e KAMILLA ZAINE DOS REIS SANTOS OLIVEIRA são servidoras públicas lotadas na Secretaria Municipal de Educação de Água Clara e seriam, segundo a denúncia, responsáveis por emitir ordens de compra que são fraudadas, captação e coleta de propina e por atestar falsamente o recebimento dos produtos da ZELLITEC COMÉRCIO DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS, tudo mediante o recebimento de propina.
ADRIANA ROSIMEIRE PASTORI FINI, que exerce o cargo de Secretária Municipal de Educação de Água Clara, pasta na qual os contratos eram pactuados e onde havia o desvio de valores, seria, segundo o Gaeco, uma das destinatárias das propinas arrecadadas pelo grupo criminoso. Já DENISE RODRIGUES MEDIS é a Secretária Municipal de Finanças de Água Clara e, segundo a denúncia, a quem cabia agilizar os pagamentos devidos aos empresários integrantes do esquema criminoso.



