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Caarapó

Doação de órgão fortalece laços de amizade e salva vida

Doação de órgão fortalece laços de amizade e salva vida em Dourados.

| GLOBO REPóRTER


 

No jogo da vida, o comerciante Flóris Tenório Lunas Jr. teve que aprender a driblar a morte. Com 39 anos, enfrentou o maior adversário: uma doença grave nos rins. Mas para o parceiro de bate-bola, o agricultor Florisvaldo Mazarim, a história reservava um papel generoso.

Flóris e Florisvaldo se conheceram em um campinho de futebol na área rural de Dourados, Mato Grosso do Sul. Jogavam em times diferentes e só se chamavam pelos apelidos. Não tinham quase nada em comum. Florisvaldo, o Nego, era homem do campo, do trabalho duro na plantação de milho e criação de galinhas. Flóris, o Júnior, foi nascido e criado na cidade em uma família de comerciantes. Júnior é calmo, sossegado. Nego é mais inquieto, explosivo. Foram as namoradas que aproximaram mais os dois conhecidos. Júnior saía com Rose, tia de Angela, que namorava Nego.

"Começamos a nos encontrar mais vezes, principalmente nas reuniões de família, nos almoços, churrascos, bailes", lembra Floris.

A amizade estreitou, e os dois foram descobrindo coincidências curiosas.

"Em um almoço, a Angela o chamou de Florisvaldo. Foi quando descobrimos que o nome dele é Florisvaldo e o meu, Flóris", conta o comerciante.

E os dois também faziam aniversário na mesma data: 29 de novembro.

"Até então, a coincidência ficou só na data. Depois, conversando sobre isso, fomos ver que o ano também era o mesmo: 1964", conta Flóris.

Flóris e Rose se casaram dez meses antes que Florisvaldo e Angela. As duas engravidaram quase ao mesmo tempo. Com os filhos, os amigos se tornaram compadres.

"Nós convidamos ele para ser padrinho do Guilherme", diz Flóris.

Unidos pelo parentesco, pelas afinidades e pelas coincidências, Flóris e Florisvaldo seguiam a rotina pacata da vidinha no interior: casa cheia de filhos, trabalho, pescaria no domingo. Mas o destino preparava uma surpresa dolorosa, que iria unir ainda mais os dois amigos. Flóris soube que estava doente. Um choque para as famílias. O médico foi franco.

"Quando ele chegou para se consultar, já estava praticamente entrando no programa de diálise, com anemia extremamente profunda e uma importante alteração da função renal. Então, teve que entrar direto para o programa de hemodiálise", diz o nefrologista Antônio Pedro Bittencourt.

"Fazia hemodiálise dia sim, dia não, durante quatro horas. Minha vida estava naquela máquina. Eu não podia ficar sem ela", conta Flóris.

"Fomos visitá-lo lá e me emocionei. A vida dele estava por um fio", lembra Florisvaldo.

A única saída era um transplante. Mas na família de Flóris ninguém podia ser doador. Florisvaldo tomou a iniciativa.

"Florisvaldo esteve em casa nos visitando e perguntou qual era o meu sangue. Eu falei que era O+. Ele afirmou que o dele também. Não sabíamos. Foi mais uma coincidência. Eu não consigo explicar, mas naquele momento senti dentro de mim que ali estava a minha saída, a minha salvação", conta Flóris.

"Quando o Florisvaldo resolveu fazer a doação, eu tive muito medo porque estava grávida do quinto filho. Cirurgia é coisa complicada, então, temi perder meu esposo, pai de cinco filhos", conta a bancária Angela Mazarim.

A comerciante Rose Lunas ficou com o coração dividido. Era mãe de três filhos e temia pelo marido e pelo amigo. "Fiquei em uma sinuca danada. Meu marido estava precisando da vida. Foi muito difícil. Eu tinha três filhos e precisava de um pai perto deles", lembra.

Florisvaldo estava decidido. Doou o rim, e o transplante foi feito. A recuperação de Floris foi completa.

"Percebemos que a relação entre os dois era realmente de afeto, de uma amizade muito grande. E tudo favoreceu", diz o médico Antônio Pedro Bittencourt.

"Eu não podia beber um copo d'água. Tinha que beber água de golinho em golinho ou até molhar um algodãozinho ou chupar um gelo. Depois da cirurgia, eu já podia beber até dois copos d'água cheios. E o mais importante: podia urinar essa água depois", comemora Flóris.

Hoje, as duas famílias se reúnem com freqüência. E têm mais um motivo para comemorar, mas Flóris não descuidas da dieta.

"Eu convido ele para tomar uma cervejinha e digo que aquele é o rim bom que doei. Mas ele não quer tomar", brinca Florisvaldo.

Para Flóris, Florisvaldo agora é mais do que amigo: é um irmão que lhe devolveu a vida.

"Eu não tenho como retribuir isso em vida. Só Deus", diz Flóris.

Flóris Lunas Jr, é primo do diretor do CaarapoNews, André Nezzi.


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