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Caarapó

Agrenco tenta viabilizar plano de recuperação judicial

Em meio à grave crise financeira mundial, a Agrenco Group tenta viabilizar seu plano de recuperação judicial, que já não conta mais com as intenções de aquisição por multinacionais.

| CAARAPONEWS/GAZETA MERCANTIL


 

Em meio à grave crise financeira mundial, a Agrenco Group tenta viabilizar seu plano de recuperação judicial, que já não conta mais com as intenções de aquisição por multinacionais. A Louis Dreyfus Commodities (LDC), a Noble Group e a Glencore retiraram suas propostas de compra do controle da companhia e agora se interessam apenas em arrendar as plantas de processamento de soja. É nessa possibilidade que a Agrenco se agarra para pagar uma dívida pelo menos três vezes maior do que seus ativos.

O desinteresse das empresas em comprar o controle da companhia teria ficado mais evidente ao final do ano, após a elaboração do plano de recuperação judicial da companhia, em novembro, segundo Ricardo Rastelli, analista de Relação com Investidores da Agrenco.

A reportagem contatou o escritório das três multinacionais no Brasil para falar sobre o assunto. A LDC não tinha porta-vozes disponíveis e as outras duas não se pronunciaram.

A francesa foi a primeira entre as três a propor a compra do controle da Agrenco, em 26 de junho. O plano era aportar US$ 100 milhões, sendo US$ 33,521 milhões por meio de aquisição de ações com nova emissão. Na época, uma das alternativas desenhadas era de que cada ação seria negociada a US$ 0,70 (R$ 1,60 ao câmbio de R$ 2,33), valor que hoje seria bem superior à cotação atual dos papéis da empresa, que ontem fecharam em R$ 0,25 - desvalorização de 96% em 12 meses.

Nas semanas seguintes, a Noble Group, com sede em Hong Kong, e a suíça Glencore, também fizeram propostas, segundo informou a Agrenco na época, em termos e valores semelhantes.

Rastelli conta que a crise financeira - que tornou o dinheiro mais escasso e caro - influenciou o desinteresse das multinacionais pela compra do controle. "As empresas têm operação no Brasil, mas as matrizes são estrangeiras, usam capital externo", explica.

Além disso, segundo ele, a troca de controle era uma questão antecedente à recuperação judicial. "Com o plano de recuperação, o controlador teria que criar condições de pagar os credores e as empresas não estavam interessadas em arcar com o passivo", acrescenta Rastelli.

A estimativa é de que até o momento a dívida total da Agrenco esteja entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,4 bilhão, bem superior ao total de seus ativos, estimados entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões, basicamente formados pelas três fábricas, duas de esmagamento de soja - Alto Araguaia (MT) e Caarapó (MS) - e uma de biodiesel, em Marialva (PR). "Os armazéns representam apenas de 5% a 10% do valor dos ativos", calcula o analista de RI da Agrenco.

Agora, a possibilidade de arrendar as duas plantas de esmagamento de soja (até o momento os planos para a unidade de biodiesel é a venda) é avaliada como a mais viável para saldar a dívida com os credores. Com a receita do arrendamento por dois anos, a companhia estima conseguir pagar os débitos com fornecedores não-bancários. "A dívida com bancos, que representa mais de 50% do passivo da empresa, será paga em dez anos, conforme previsto no plano de recuperação judicial", informa Rastelli.

Ele garante que, além das propostas das três multinacionais, também há outras empresas interessadas no arrendamento das duas esmagadoras de soja. A unidade de Alto Araguaia tem capacidade para processar 3 mil toneladas por dia e 1 milhão de toneladas de soja anuais. A de Caarapó tem condições de processar a metade desse volume.

As propostas de arrendamento, segundo Rastelli, estão previstas para serem avaliadas pelos credores em reunião agendada para o dia 19 de fevereiro, quando ocorre a Assembléia Geral de Credores da companhia. "Precisamos da aprovação de 50% mais um para implementar o plano de recuperação judicial". A reportagem contatou alguns dos credores da companhia.

O banco Daycoval informou que não iria comentar o assunto e a assessoria do BIC Banco retornou ontem afirmando que não havia porta-vozes disponíveis para entrevistas. "Sabemos que estamos diante de uma forte crise, mas o plano de recuperação é coerente e possui premissas aceitáveis. É a melhor alternativa para os credores", avalia Rastelli.

Planos

Se for aprovado o plano, a companhia conseguirá retomar parte de suas atividades. O analista de RI detalha que a intenção é reiniciar a originação de grãos e arrendar as indústrias. "Vamos retomar a atividade de trading e, depois dos dois anos de arrendamento, esperamos ter capital de giro suficiente para continuar o plano de verticalizar, assumindo a operação das nossas unidades de processamento de grãos".

Assim, caso a recuperação seja aprovada, a previsão é de já nesta safra movimentar 150 mil toneladas de soja em Mato Grosso, estado onde a companhia tinha atuação mais forte. O volume representa 10% ou menos do total entre 1,5 milhão e 2 milhões de toneladas que a empresa movimentava antes do escândalo com dívidas e evasão de divisas que envolveu seu CEO, Antônio Iafelice, e diretores.

A Agrenco começou a dar os primeiros sinais de problemas financeiros em abril de 2008 com o atraso do pagamento de produtores. Em meados de junho, a empresa Hunter Douglas do Brasil Ltda. pediu a falência da empresa por falta de pagamento de materiais de construção. Em 2007, a Agrenco faturou US$ 1,5 bilhão com exportação de grãos e farelo do Brasil, Argentina e Paraguai. A previsão com seus três complexos agroindustriais recém construídos era de aumentar o faturamento em mais de US$ 1,1 bilhão.

Em Caarapó, segundo apurou a reportagem do CaarapoNews, dezenas de operários que trabalharam nas montadoras não receberam, um desses trabalhadores é Maikyl Azarias, 25 anos, que disse ter mais de R$ 6 mil a receber de uma dessas empresas. Fornecedores do setor alimentício, construção civil, matérias de construção, entre outros, também estão no prejuízo.

 


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