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Geral

Jornalista se faz de louca para testar psiquiatras e termina com depressão


Acho que não sou a única médica a emergir de um encontro com um paciente difícil e imaginar – nem que seja por meio segundo – quem exatamente está por trás de um comportamento tão extraordinário.
 

O paciente é um agente secreto da agência reguladora, em campo para determinar minha competência sob pressão?
 

O "The National Enquirer" (tablóide sensacionalista) está planejando um furo? É uma pegadinha? Nunca é o caso, mas só porque você é um pouco paranóica não significa que um jornalista com um contrato lucrativo para escrever um livro não esteja perambulando por aí, fingindo ser um paciente e anotando tudo às escondidas.
 

"Voluntary Madness" ("Loucura Voluntária", em tradução livre) serve como prova: um livro escrito por um paciente disfarçado que investigou o sistema de assistência médica psiquiátrica do lado de dentro.
 

A jornalista Norah Vincent ganhou elogios há alguns anos pelo seu "Self-Made Man", a história de 18 meses em que passou encarnando um homem, completada por uma barba falsa.
 

Hoje, ela está fazendo algo similar no mundo dos doentes mentais. Desta vez, no entanto, uma limitação existe: a própria Vincent tem credenciais como paciente psiquiátrica. Na verdade, foi uma hospitalização por depressão que lhe trouxe toda a ideia para escrever um livro.
 

Confinada em uma ala por risco de suicídio, ela descreve que olhou ao redor e disse para si mesma: "Jesus, quanta bizarrice. Tudo que tenho que fazer é ficar aqui e tomar notas, e serei Balzac".
 

Definitivamente, Balzac ela não é. Porém, seu projeto tem, sim, potencial. Apesar de não faltarem livros sobre as deficiências do sistema, escritos por pacientes psiquiátricos e membros da equipe médica, o olhar de um observador objetivo é difícil de encontrar.
 

Infelizmente, o plano logo descarrila. Vincent inicia sua missão de uma forma puramente jornalística, porém no meio do livro ela é, de novo, tomada pela depressão.
 

Até o final da obra, ela escreve simplesmente como uma paciente. Não é uma mistura de perspectivas desinteressante, mas não é exatamente o que o leitor esperava. A primeira parada de Vincent em uma turnê por três hospitais é com o pseudônimo de Meriwether, um hospital público urbano cujo lugar mantém uma leve semelhança com Bellevue em Manhattan.
 

Vincent – que ainda se sente um pouco animada – finge depressão suicida para dar entrada no hospital e é transferida para a área restrita, onde esconde seus antidepressivos e encontra condições tão intimidantes quanto qualquer jornalista pode desejar.
 

A equipe é formada por profissionais antiaderentes e ajudantes brutos; a comida é sem gosto, os banheiros são sujos, as tentativas de terapias são superficiais, e uma grande dependência dos principais tranquilizantes deixa os pacientes, a maioria deles sem-tetos incuráveis, quase inconscientes. 
 

O cidadão de classe média ocasional, preso nessa bagunça, rapidamente aprende a fingir sua recuperação para escapar. Após dez dias, Vincent recupera sua liberdade com alívio e uma epifânia não completamente original: limpeza, nutrição, gentileza e financiamento adequado são todos partes da assistência mental, especialmente quando a psicose se entrelaça com a pobreza.
 

Assim, sem muitas explicações, ela segue para seu novo local: um pequeno hospital particular em uma área rural de um estado não-identificado do meio-oeste, que só aceita pacientes com seguro e opera claramente com grandes margens de lucro.
 

O local é imaculado, o refrigerador é cheio de lanchinhos, a equipe é cuidadosa e comprometida. Vincent – à beira de uma depressão significativa, mas determinada a ficar longe dos medicamentos – permanece dez dias agradáveis, quando não particularmente produtivos, nesse cenário terapêutico: "Se você não melhora, pelo menos é pouco provável que piore".
 

Em seu terceiro experimento, toda a pretensão de pesquisa objetiva foi arquivada. Vincent está agora profundamente deprimida, e escolhe uma terceira clínica por sua oposição a medicação psicotrópica e por ser a favor de uma "intensa terapia, companheirismo e calor humano".
 

Uma vez lá, ela se curva em posição fetal e se concentra em seus fantasmas pessoais. Seus colegas pacientes são sérios usuários de substâncias químicas mandados à clínica por ordem judicial após dirigirem alcoolizados várias vezes e outras infrações – uma clientela da pesada em um ambiente suave. Porém, vemos poucos deles.
 

Nesse ponto, Vincent perdeu o interesse por qualquer outra coisa a não ser ela própria, e a escritora dentro dela nem tenta mais aparecer. Por exemplo: "Gary era uma pessoa com quem você poderia ser estranha, mas ele não se ameaçava com isso.

Mas você também podia ser séria e contar seus problemas a ele". E assim o livro se desenrola em mais uma memória de traumas sofridos, nem melhor nem pior que todos os outros já existentes.
 

O que é uma pena, pois o projeto original de Vincent tem um precedente histórico importante. Em 1887, outra corajosa repórter baseada em Nova York teve exatamente a mesma ideia; ela escreveu para o jornal "New York World", de Joseph Pulitzer, assinando como Nellie Bly, foi enviada ao asilo para loucos de Blackwell's Island por dez anos, e encontrou condições que são pavorosamente ecoadas no livro de Vincent.
 

O relato de Nellie Bly – uma produção jornalística limpa e objetiva, disponível em digital.library.upenn.edu/women ao pesquisar seu nome – escandalizou os leitores e constrangeu servidores públicos a um nível tal que no ano seguinte a cidade alocou um milhão de dólares a mais para a assistência aos doentes mentais.
 

"Pelo menos tenho a satisfação de saber que os pobres desafortunados serão melhor tratados por causa do meu trabalho", escreveu Bly mais tarde. Mesmo com toda sua boa intenção, é difícil acreditar que o livro de Vincent terá o mesmo efeito.


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