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Caso Zeolla

Zeolla diz que sobrinho era ingrato, garoto de programa e agredia avô

| MIDIAMAX


O procurador de Justiça Carlos Alberto Zeolla, 44 anos, que confessou ter matado na terça-feira passada Cláudio Zeolla, 24, seu sobrinho, em Campo Grande, disse em depoimento que o rapaz era “ingrato, consumidor de drogas, profissional do sexo” e que ele quis surrá-lo um dia antes do crime porque a vítima teria agredido o seu pai, Américo Zeolla, avô do sobrinho assassinado.
 

Num trecho do depoimento, ao qual o Midiamax teve acesso com exclusividade, o procurador leva a crer que premeditou a morte de Cláudio Zeolla, dado que pode complicá-lo lá na frente, quando for julgado.
 

Disse ainda que ele toma doses controladas de remédios psiquiátricos há 8 anos e neurológicos há quinze e, ainda, que uma previsão médica sustenta que o "seu cérebro está murchando". O procurador diz sofrer de isquemia cerebral, um tipo de AVC (Acidente Vascular Cerebral), que ocorre quando há uma interrupção ou deficiência da circulação de sangue por arteriosclerose -- espessamento e endurecimento da parede arterial -- ou por um coágulo proveniente do coração. 
 

Carlos Zeolla prestou depoimento na quinta-feira passada à Comissão Processante do Ministério Público Estadual, sob um forte aparato policial, no gabinete do procurador-geral de Justiça de Mato Grosso do Sul, Miguel Vieira.
 

Ele disse que um dia antes do crime (segunda-feira, 2 de março), levantou-se bem cedo e seguiu para o laboratório médico onde se submetera a exames endoscópicos no estômago e intestino. Lá, ficou das 7h até por volta das 13h. Contou que retornou para a casa, no bairro Monte Castelo e dormiu até perto das 19h30. Disse ter acordado e seguido até a cozinha, mas ao passar pela sala percebeu os dois sobrinhos “cochichando”.
 

Cochicho

O procurador quis entender o porquê do diálogo reservado, e logo soube, segundo o depoimento, que Cláudio Zeolla teria agredido o avô, Américo Zeolla, de 86 anos de idade, pai do procurador. Os sobrinhos teriam levado o avô na manhã do dia 2 ao Proncor após o idoso passar mal por conta da agressão sofrida, segundo o termo de interrogatório do MPE.
 

Irritado, Carlos Zeolla teria indagado aos sobrinhos por que não deram "um cacete” no suposto agressor. O procurador contou, ainda, no depoimento que disse aos sobrinhos: “quando vocês precisam de R$ 60 mil para cuidar das finanças da empresa [agência de publicidade] vocês procuram o avô, quando é para protegê-lo, não fazem isso”.
 

Os sobrinhos, que habitam a mesma casa do tio, teriam se defendido com esse comentário: “tio, o senhor viu o tamanho do Cláudio?”, referindo-se à força física do rapaz assassinado. Ele era fisiculturista.
 

O procurador afastado conta depois que os jovens disseram que o sobrinho tomava anabolizante de cavalo - estimulante muscular ilegal.
 

Agressão
 

Depois desse diálogo, o procurador afastado e os dois sobrinhos teriam ido para a casa de Américo Zeolla. Lá, o procurador afastado disse que viu o pai chorando por ter sido agredido pelo sobrinho. Ele teria aconselhado o pai a procurar a polícia, mas não conseguiu convencê-lo.
 

No depoimento, contudo, o procurador afastado não explica nem é questionado pelos interrogadores (três procuradores de Justiça) como teria sido a agressão sofrida pelo idoso.
 

Carlos Zeolla cita no depoimento, em cinco folhas, que saiu dali em companhia dos sobrinhos com um propósito: surrar Claúdio por ter agredido o avô.
 

Ele disse que foi até o supermercado Extra, onde o rapaz trabalhava como açougueiro. Lá, soube que ele havia cortado a mão e naquele dia não havia trabalhado graças à licença médica. A namorada do jovem (que também trabalha no Extra), Misleine, 19, já havia dito ao Midiamax que Cláudio tinha cortado a mão no trabalho.
 

Enfurecido

Carlos Zeolla, dizendo-se enfurecido, percorreu os locais onde o jovem ‘fazia ponto’ - ruas 7 de Setembro, 15 de Novembro, Rui Barbosa e proximidades da Morada dos Baís. Nessa região, citada pelo procurador como ponto de encontro de garotos e garotas de programas e aonde o sobrinho Cláudio Zeolla “ia com freqüência”, o rapaz também não foi encontrado naquela noite. Nessa fase do interrogatório, os procuradores não esticam o diálogo acerca da informação de que o sobrinho do procurador era um profissional do sexo. Nada lhe questionam a respeito.
 

A busca teve continuidade. Com a ajuda dos sobrinhos, Zeolla telefonou para “umas pessoas” no bairro Tarumã e Conjunto Aero Rancho, que conheceriam Cláudio, mas que também não souberam do paradeiro do rapaz.
 

Carlos Zeolla disse, no depoimento, que por volta das 23h resolveu, então, retornar para casa, desistindo da proposta surra.
 

Ele contou que tomou uma dose de Rivotril (remédio de tarja preta usado por pacientes em tratamento de depressão e relaxante), mas ainda assim, não conseguia dormir.
 

Disse ter ingerido outra dose e, mesmo com o remédio, teve dificuldade em pegar no sono.
 

Ele declara, ainda, que uma médica que o acompanha há tempos havia-lhe alertado que se ingerisse dose superior à recomendada poderia provocar um “suicídio”.
 

No dia seguinte, 3 de março, o procurador afastado acordou por volta das 6 horas da manhã, mandou o “secretário particular”, um rapaz de 17 anos, ir à padaria porque queria tomar um reforçado café da manhã. A razão: ele se submeteria à tarde a uma nova sessão médica, uma espécie de preparação para uma cirurgia gastroenterológica.
 

O secretário do procurador, de 17 anos, era quem dirigia o carro, ainda que sem sequer ter atingido idade para possuir habilitação.
 

A trama

O procurador afastado conta que tomou o café acompanhado do "secretário particular" e de um dos sobrinhos. Depois, seguiu para o Horto Florestal, na Rua 26 de Agosto com Ernesto Geisel, onde praticava caminhadas. Mas, antes disso, passou na casa do pai.
 

Carlos Zeolla disse ter encontrado o pai do mesmo modo que havia deixada na noite anterior, isto é, chorando devido à agressão que teria sofrido do sobrinho. O procurador disse ter aconselhado o pai a procurar a polícia e denunciar o caso, contudo, houve recusa de novo, segundo ele.
 

Carlos Zeolla disse ter seguido até o quarto do pai, pegado um revólver municiado e, sem ser notado, deixou a casa. Antes, porém, abraça e beija a mãe, que também estaria “arrasada” pelo episódio da agressão. Ele lhe pede benção, recebe carinho da mãe, mas não revela suas intenções.
 

O procurador afastado segue para o Horto ‘para espairecer’, onde fica por meia hora. Depois pede para o "secretário particular" levá-lo até a Rua Bahia, na esquina com a Rua Pernambuco, na Vila Rosa. Ele disse que sabia que Cláudio Zeolla freqüentava ali uma academia de ginástica.
 

À queima-roupa
 

Até então, segundo o procurador, nem o seu secretário sabia da arma que carregava na cintura.
 

O carro do procurador, um Fiesta, de cor prata e insulfilm nos vidros (menos no para-brisa dianteiro), ficou estacionado bem perto da academia. O pisca do lado esquerdo estava ligado e ele mandou que fosse desligado para não chamar a atenção, mas o motor do veículo funcionava. O tempo que levou para a vítima aparecer foi de 30 a 40 minutos.
 

Por volta das 8h30 surgiu na calçada Cláudio Zeolla, que conversava ao celular e empurrava a bicicleta.
 

O procurador afsatado disse no depoimento que sem ser notado pelo sobrinho, seguiu-o por uns oito passos, sacou a arma, encostou-a na nuca e com um único disparo derrubou o rapaz no chão. O tiro foi a queima roupa e pelas costas.
 

Na seqüência, o procurador afastado entrou no carro, sentou-se no banco de trás e ordenou que o "secretário particular" acelerasse. Os dois saíram em direção à saída de Três Lagoas, pela BR-262, onde a arma foi jogada no córrego Guariroba. No caminho, Carlos Zeolla conta que foi jogando fora as munições não deflagradas.
 

Despachada a arma na margem do córrego Guariroba (foi encontrada lá no dia seguinte ao crime pela Polícia), o procurador afastado determinou que o rapaz retornasse para a casa logo. No caminho, disse no depoimento, ele cruzou com uma viatura do Garras [policiais civis]. A visão dos policiais teria deixado ele e o "secretário particular" teriam ficado assustados, mas seguiram. Ainda dentro do carro, o procurador trocou de roupa, tirando a que usava e que ficara com respingos de sangue. Ele carregava outras peças de roupas numa sacola.
 

Caiu a ficha

Logo perto da casa, no bairro Monte Castelo, o procurador viu duas viaturas da PM (Polícia Militar) estacionadas. Ele desceu do carro e mandou o secretário seguir até o posto de gasolina para abastecer o carro, pois chegaria a pé em casa.
 

Ele narra que conversou com os policiais, que o informaram que o sobrinho tinha levado um tiro e passava por cirurgia na Santa Casa. Os PMs disseram ainda que o carro visto pelas testemunhas tinha a mesma placa e características do veículo dele, um Fiesta de cor prata. Sem assumir a autoria do crime, Carlos Zeolla relata que chegou a falar aos policiais que ia tentar localizar um amigo neurocirurgião para cuidar do rapaz. “Aí, caiu a ficha”, declara o procurador, dando a entender que neste instante teve a dimensão do que praticara. “Fiz uma merda”.
 

Tempo depois, ainda pela manhã, apareceu na casa o diretor-geral da Polícia Civil, Jorge Razanauskas, "velho conhecido" de Carlos Zeolla, segundo disse. O delegado teria-lhe dito que seu carro fora identificado como o usado por quem havia disparado o tiro no sobrinho.
 

Droga
 

No depoimento, o procurador Carlos Zeolla conta por seguidas vezes que o sobrinho era “ingrato”, porque sempre recebera apoio dos avós, mas não reconhecia isso.
 

Ele disse que o avô teria comprado um computador de R$ 2 mil para o sobrinho, mas o equipamento fora revendido pelo rapaz depois por R$ 200. O procurador afastado disse acreditar que Cláudio vendera o computador para comprar maconha, pois o sobrinho, uma vez teria-lhe confidenciado que usava esse tipo de droga.
 

No dia do crime, foi o motorista que revelou primeiro a participação do procurador no crime. Ele contou sobre o tiro e a fuga para a saída de Três Lagoas. Até então, o procurador negava o envolvimento. O secretário particular teria dito ao delegado Fabiano Gastaldi que sofrera ameaça. Caso abrisse a boca, teria o mesmo destino. Mas o procurador afastado nega a acusação e à Comissão Processante diz que é “amigo íntimo da família” dele.
 

Indagações

A vítima, ainda segundo Carlos Zeolla, não parava em emprego. Ele diz que teria tentado arrumar por duas vezes trabalho para o sobrinho. O primeiro, num posto de combustível de um amigo, casado com uma colega do MPE. O jovem teria causado prejuízos ao patrão. O procurador não detalha o caso.
 

Na empresa de publicidade dos sobrinhos, Cláudio chegou a trabalhar. Mas teria se envolvido em confusão durante à noite, quando fazia ‘ponto’ no Centro da cidade como profissional do sexo, e acabou perdendo o emprego. “Cláudio sofreu agressão de um grupo de pessoas que fazia programas na região central porque invadiu território dos outros”, detalha o procurador.
 

Sem perguntas
 

A Comissão Processante não quis saber mais sobre o assunto.  Um dos membros da Comissão perguntou a que distância da vítima o disparo foi efetuado. A resposta: “...encostado na nuca à queima-roupa”. A vítima sequer viu o agressor.
 

Indagado sobre os motivos de não ter um motorista particular adulto, Carlos Zeolla disse que lhe custaria muito caro, pelo menos entre R$ 1,4 mil a R$ 1,8 mil. Outra pergunta feita foi onde, exatamente, ele estava no carro quando esperava a vítima. A resposta: “sentado no banco direito da frente ao lado do motorista”.
 

A defesa lhe perguntou, segundo o termo de interrogatório, informações sobre a vida pessoal e mais uma vez, a conversa terminou no seu estado de saúde. Foi casado com Senise Chacha Zeolla. Juntos namoraram e conviveram por 15 anos. Ela acompanhou três crises de esquemia cerebral e todo o sofrimento do marido.
 

Carlos Zeolla conta que não recebeu voz de prisão em casa, pelo diretor-geral da Polícia Civil, nem pelo procurador geral de Justiça, Miguel Vieira, com quem esteve antes de seguir para o primeiro Distrito Policial. Às 19 horas o delegado Fabiano Gastaldi lhe deu voz de prisão. O procurador negava a autoria do crime.
 

Mas, às 18h34 de 5 de março, em depoimento que durou cerca de duas horas, ele assumiu que matou o sobrinho. Constam a confissão e a assinatura dele no termo de interrogatório do MPE.
 

Já afastado das suas funções, que vão lhe render vencimento na ordem de R$ 24 mil por mês até a tramitação e julgamento do processo, Carlos Zeolla será denunciado hoje ao TJ-MS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul). O MPE apresenta nesta terça-feira a denúncia com as informações do interrogatório que o Midiamax teve acesso.
 

O caso foi marcado pela rapidez da ação policial e do MPE. Resta agora saber o tempo que o processo deverá tramitar até o julgamento final.


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