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'O obeso é um dependente químico físico e psicológico de caloria', diz médico nutrólogo

| CORREIO DO ESTADO


Nutrólogo por formação (ele fez medicina e especializou-se em nutrição), o médico Sandro Trindade Benites, de Campo Grande, aborda um tema que figurou na mídia recentemente e alçou Campo Grande à cidade com maior número de obesos. Atualmente, a obesidade é considerada pandemia e atinge milhares de crianças, jovens e adultos. Nesta entrevista ele fala sobre a influência da modernização da sociedade, das atitudes familiares, sobre a necessidade de resgatar hábitos saudáveis e de comer menos.
 

Uma pesquisa no fim de agosto, lançada pelo Ministério da Saúde, revelou que Campo Grande é a capital com a maior quantidade de pessoas com excesso de peso (58,3%). Como nutrólogo, quais são os fatores principais que colaboraram para se chegar a este alto índice? E por que a obesidade está crescendo mais entre as mulheres?

Sandro Trindade Benites - O principal fator, sem a menor sombra de dúvida, é a modernização da sociedade em um período muitíssimo curto - em menos de cem anos o ser humano transformou como nunca antes o ambiente em que vive! Por exemplo, andamos de carro e moto. Só que esses meios de transporte existem há menos de cem anos, numa história de mais de 4 milhões de anos de existência da raça humana na Terra. Mesmo raciocínio para o uso dos celulares, da TV e do computador. Já nascemos com eles e achamos normal usar e abusar de seu uso. A consequência natural é o ganho de peso. Naturalmente, sem esforço as pessoas estão acumulando gordura. Basta qualquer pessoa fazer uma observação simples em um álbum de família de 5, 10 ou 20 anos atrás e comparar com fotos atuais. É assustador como a grande maioria das pessoas engordou – e muito. O problema não é a obesidade ser um pouco maior em mulheres ou em homens. O pior é que, em todas as idades, em ambos os sexos, em todos os níveis socioeconômicos a obesidade está aumentando, em todas as regiões do País, sem exceção.
 

Como o mundo conspira para engordarmos?

Em um mundo capitalista o objetivo é o lucro. Para obter lucro é preciso vender. Para vender é necessário que seja gostoso. O maior estímulo para o ser humano se alimentar é o paladar. Quanto mais palatável, melhor. Então, temos restaurantes e fast foods com alimentos cada vez mais palatáveis. Tão palatável, a ponto de não gerar saciedade. As pessoas simplesmente não conseguem parar de comer. Geneticamente, estamos preparados para engordar, ou seja, multiplicar células de gordura, o adipócito. O motivo deste preparo são milhares de anos de evolução, na qual o ser humano sempre precisou gastar energia pare sobreviver – caçando, pescando, acendendo a fogueira. Passávamos longos períodos em jejum. Logicamente sobreviveu quem tinha a capacidade de armazenar gordura. E esse gen foi passado para frente. O que sempre foi um privilégio (engordar), hoje se transformou em um tormento, pelas mudanças que o próprio homem impôs ao ambiente em que vive.
 

O senhor acredita que a maior parte da família brasileira sabe o que é uma alimentação correta e opta pela industrializada porque é mais cômodo?

Sim, sabe sim. Porém, conhecimento não muda comportamento. E é exatamente este ponto. Por ser muito mais prático e cômodo é que se opta por alimentos industrializados. O índice de crianças obesas tem aumentado significativamente. E, infelizmente, o projeto de lei que aprovava a venda em cantinas escolares apenas de alimentos saudáveis foi barrado por aqui.
 

O senhor não acha que a educação alimentar tem que vir da base?

Sim, da base familiar. Os pais têm que ser o grande exemplo. A criança aprende por aquilo que ela vê, presencia, por imitação e não por aquilo que falamos que é correto. É lógico que a escola tem papel fundamental. Há cinco anos entrei com um pedido na Câmara Municipal, onde criava a escola saudável, proibindo a venda de alimentos obesogênicos nas cantinas. Essa iniciativa foi também barrada pela indústria de alimentos, na época. Um desastre! É a influência econômica em detrimento da saúde de nossas crianças!
 

O senhor acredita que fazer comida caseira e comê-la em família, ao redor da mesa, é um hábito que deveria ser resgatado e contribuiria para a reeducação alimentar?

Muito. Mesmo! Além dessa medida, não comer na frente da televisão. É imposição de limite necessária ao sucesso do tratamento. Existem muitos estudos mostrando que quanto maior o tempo na frente da TV ou maior o número de aparelhos de TV em casa, pior. Televisão dentro do quarto, então, é uma tragédia. A criança deve ter, no máximo, o direito de permanecer na frente de uma tela (seja TV ou computador) uma hora por dia. Encontrar, dentro da família, outras opções de diversão é fundamental – como brincar, correr e pular. Ir com o filho e não apenas cobrar, pois o tratamento é para a família.
 

Há um Trabalho de Obesidade Infantil gratuito em realização no Hospital Regional. Como ele acontece?

Sim, é muito bacana. Realizamos o chamado Atendimento Multiprofissional Integrado, no qual vários profissionais atendem ao mesmo tempo várias famílias com diagnóstico de obesidade. Acontece aos sábados, pela manhã e à tarde, nas salas de aula do HRMS. E há uma lista de espera! Para participar basta ter encaminhamento de um profissional de saúde. O contato pode ser feito com a Jociane, no telefone 3378-2548. O grupo é formado por um médico nutrólogo, uma nutricionista, uma psicóloga, uma professora de Educação Física e uma endócrino-pediatra. Solicitamos e avaliamos exames complementares, procedemos a orientação alimentar junto com programas de atividade física e, de forma bem simples, orientação para o processo de mudança de comportamento para a família, com estímulo positivo para se tornar pessoa magra, bonita e saudável. É extremamente satisfatório vermos os resultados. A grande maioria dos pais perde muito mais peso que os filhos. Temos a oportunidade de mudar a história de uma geração.


Quando é que uma pessoa pode ser considerada obesa?

Existem várias tabelas, como o IMC (índice de massa corpórea). Mas eu prefiro um instrumento bem mais simples: o diagnóstico visual. Quem não parece magro tem, no mínimo, sobrepeso. E o caminho tem uma direção única: fofinho, gordinho, obesinho e morbidozinho!


Qual a grande dificuldade para um médico que lida com a obesidade? E a do paciente?

A maior dificuldade é fazer o paciente reconhecer e aceitar a obesidade como uma doença grave, que necessita de um tratamento sério, longo e que, infelizmente, ainda não há cura. Ou seja, uma vez que eu desenvolvo a capacidade de engordar, ou seja, acumular gordura, isso é para o resto da vida. Outro grande problema é a pandemia que se tornou o excesso de peso e a obesidade. Nenhum programa no mundo ainda se mostrou eficaz na redução desta epidemia. É, de fato, uma grande preocupação.


Um médico argentino disse que o excesso de peso é fruto de uma compulsão gerada por certos alimentos e estimulada pelo ambiente onde vivemos. O senhor concorda?

Sim. É o ambiente moderno que facilita um erro grave de comportamento alimentar, um sedentarismo extremo e, consequentemente, o excesso de peso. Afirmo ainda mais: o obeso é um dependente. Falo de dependência química, física e psicológica por caloria – assim como o tabagista o é pela nicotina ou o alcoólatra pelo álcool. Muitas vezes esta dependência é bem maior e mais difícil de ser tratada. Precisamos de profissionais preparados para lidar com esta dependência com profissionalismo.
 

O que deve conter a dieta ideal para uma pessoa ao longo do dia?

Eu odeio dieta! Brinco que se dieta fosse bom, o mundo estaria magro. Hoje, existem mais de cinco milhões de dietas publicadas em revistas, internet, artigos científicos e a obesidade só aumenta. Então, mais importante que tentar seguir um papel, um regime, prefiro que os pacientes adotem um novo estilo de vida, respeitando o hábito alimentar da pessoa. Devo respeitar o seu hábito alimentar. Não pode o paciente comer arroz, feijão e carne, vem alguém e fala pra ele: “Não, tem que comer grão de bico, arroz integral e queijo de soja”... Não vai funcionar. Explico que só há uma maneira de perder peso hoje: comer menos. Muitas pessoas entram na academia, ganham peso e falam que estão trocando gordura por músculo. Respondo que não, estão é engordando mesmo. É que o sujeito malha uma ou duas horas e, por conta disso, se dá o direito de comer um pouco a mais. Não funciona, pois a capacidade que temos de ingerir calorias é infinitamente maior do que de gastá-las. Principalmente no ambiente atual. Então deixo algumas dicas de uma alimentação ideal.

PrimeiroCombater o erro alimentar grave! O que seria este erro? É todo alimento que sabemos que faz mal, que engorda, sem a necessidade de ir a uma nutricionista ou a um médico para saber disso. Falo das frituras, sorvetes, chocolates, doces, salgadinhos, ou seja, as guloseimas. É fundamental retirar esses alimentos do dia a dia. Não levar para dentro de casa, ou seja, não comprar. Se comprar, vai comer.

Segundo
Evitar a caloria na forma líquida, pois o líquido, em geral, não gera saciedade, é rapidamente absorvido. Logo, evitar o refrigerante e o suco de fruta (isso mesmo). Dar preferência para a fruta e não mais para o suco, que é extremamente calórico. A partir de hoje, não tome mais o suco de laranja, coma a laranja. A mesma coisa com os outros sucos – uva, pêssego, maçã. Comer a fruta é sempre melhor.

Terceiro – Comer menos. Evitar rodízios. Compre menos que você comerá menos.

QuartoDepois de vencidas as etapas anteriores, uma de cada vez, aí sim você passa para a próxima: aprender a comer melhor, ou seja, produtos integrais, peixe três vezes na semana, etc.

Quinto Iniciar uma atividade física com prazer, nunca por obrigação. Quando compramos uma esteira e colocamos metas fazendo o exercício por obrigação, a chance de pararmos após breve período é grande. Procure atividades que proporcionem prazer e expectativa.


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