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Caarapó

MS: Abusada desde os 11 anos, menina afirma que padrasto a engravidou

| MIDIAMAX


A impunidade é o que mais dói e atormenta Suzana, 34, e Daniela, 14, nomes fictícios de mãe e filha, personagens de uma triste história que se desenvolve em Campo Grande, de abuso, violência, maltratos, que deixaram sequelas profundas em suas vidas, mas também trouxe alegria no sorriso de uma criança, fruto desse contexto.
 

Quando tinha 11 anos de idade, ainda nem era mulher, nem tinha vindo a primeira menstruação, a menina conta que foi estuprada pelo padrasto, Ari, 37 anos, nome também fictício com o único intuito de preservar as vítimas. Desde então os abusos se repetiram quase que diários. A mãe deixava a casa para ir ao trabalho, muito cedo, pela madrugada. O agressor mudava de cama e amanhecia com a menina. Veio a gravidez aos 12 e o nascimento da filha aos 13. A criança, Gabriela tem hoje 4 meses.
 

Ari separou-se de Suzana logo que a enteada engravidou, casou-se de novo e leva a vida tranquilamente. Ele trabalha no mesmo local que a ex-mulher, nega ser o pai da criança e duvida que ela consiga provar o contrário, relata Suzana. Magoada com a agressão imposta à filha, a mãe chefe de família fala com desespero sobre as providências que já tomou, e deram em nada até agora: foi à polícia, ao fórum, ao conselho tutelar e já não sabe mais a quem recorrer.
 

O registro do B.O. (Boletim de Ocorrência Policial) de estupro está na Depca (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente). Ele foi feito dois meses depois que o bebê nasceu, e tão logo o crime foi revelado pela menina. Prisão do padrasto e pagamento de pensão são os desejos de mãe e filha, mas o Conselho Tutelar já teria dito para elas desistirem de represália, pois seria ‘tarde porque a criança já nasceu’. Somente o exame de DNA poderia ajudá-las, mas até agora a denúncia não avançou.
 

Segredo

Ao Midiamax, Suzana e Daniela conversaram sobre o assunto que até o mês passado era um segredo entre mãe e filha. Na sala da casinha simples à espera de reboco, no Jardim Carioca, periferia da cidade, elas relataram um pouco dos quase dez anos de casamento e convivência com Ari.
 

Suzana foi casada com o pai de Daniela e com ele teve mais uma filha, que hoje tem 11 anos de idade e até o mês de dezembro morava em Ponta Porã. Separou-se quando as crianças eram muito pequenas. Quando Ari conheceu Suzana, as filhas dela tinham 1 e 3 aninhos. Apaixonado, o casal foi morar junto e teve mais uma filha, Luiza, hoje com seis anos de idade.
 

Na casa moravam: Suzana, Ari, Dani e Luiza. A segunda filha de Suzana, do primeiro casamento, foi morar em Ponta Porã com os avós.
 

Dani e Luíza, irmãs por parte de mãe, cresceram juntas, como uma família qualquer. A rotina de casa era de uma família normal. Mas as coisas começaram a mudar quando a bebedeira e a traição dele passaram a tirar o sossego de Suzana. No tormento de mulher traída, ela acreditava que somente esses eram os problemas do casal.
 

Dos 3 aninhos até os 10, Daniela era a filha mais velha do casal. Quando completou 11 começou a dividir com a mãe um papel que não era dela: ser amante do padrasto. Todos os dias bem cedo (5h30) a mãe deixava a casa e seguia para a indústria. Ari abusava da menina. Daniela menstruou logo depois.
 

Abusos

As brigas do casal eram freqüentes sempre por causa de bebida e traições, relata Suzana.
 

Ari começou a trabalhar no mesmo lugar que a mulher. Em casa, durante o restante do dia até a noite, o tratamento com a enteada era como se ela fosse mais uma filha. “Ele tinha ciúme de gente que ia a casa. Tinha ciúme porque tinha sabido que ela tava de namorico, mas eu nunca imaginava”, diz a mãe.
 

Concentrada na bebezinha ao colo, que durante a entrevista não deixou o seio da mãe, a ainda menina Daniela relembrou detalhes dos abusos que sofria. Ela disse que todos os dias o padrasto se deitava com ela. Não deixava a filha dele ouvir nada e ameaçava a enteada. Ari tinha descoberto que Daniela já namorava. “Foi ele me ver com meu namorado no ponto de ônibus que ele começou a fazer aquilo...”.
 

Os abusos sexuais começaram a ocorrer. Como trunfo para perpetuar os abusos incólume, ele ameaçava contar à mulher o segredo de que a menina namorava. O namoro da menina acabou. “Eu terminei com meu namorado”. A primeira experiência sexual dela foi com Ari. Sem confidenciar o que acontecia dentro da própria casa a menina continuou a vida, e a barriga crescia.
 

Invisível

A mãe separou-se do marido ainda sem saber do ocorriso. Ela não percebeu que a filha estava gestante. “Ela sempre foi gordinha. Quando eu fui ao médico, porque não estava me sentindo bem e aproveitei para levar a Dani, que descobrimos juntas que ela estava grávida e logo depois a neném nasceu”, relata a mãe. A menina ficou com medo de que o segredo fosse descoberto. Como ela menstruava, nunca pensou que tivesse uma criança em seu ventre. Tudo foi rápido demais. Em novembro, o parto normal na Maternidade Cândido Mariano trouxe a pequena Gabriela.
 

A jovem avó achava que o bebê era filho de um namoradinho, sobre o qual a menina fazia segredo. Ela nunca imaginou que fosse do ex-marido. Ari esteve em Ponta Porã, terra natal do casal, e soube que a jovem tinha tido um bebê. “Fingido. Veio e disse que ia me ajudar a encontrar o pai porque eu não ia poder enfrentar isso sozinha. Pegou a bebê no colo, tirou foto e até comprou um carrinho nas Casas Bahia”.
 

O segredo se desfez no Natal. Daniela foi passear com a filhinha na casa dos tios e avós em Ponta Porã, e reuniu coragem para revelar o que há pelo menos dois anos ela represava dentro de si: Gabriela era filha do padrasto Ari. “Meu tio em Ponta Porã, irmão da minha mãe, disse pra eu contar e confiar porque ele me ajudaria e contaria para minha mãe”.
 

O tio ficou preocupado, telefonou para a irmã e mandou ela “botar a boca no mundo” e fazer ele pagar pelo que fez.
 

O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) prevê detenção de 4 a 10 anos nos casos de estupro.
 

Hoje, Ari frequenta a casa todos fins de semana para levar a filha, Luiza, à casa da nova família. Ele casou-se com uma mulher que tem um menino adolescente. Luiza não sabe que Gabriela, que chama de priminha, é na realidade sua irmã.
 

Em meio à entrevista, Luiza corria com chocolate na mão. Ela dividiu o doce com as irmãs e a mãe e comemorou o fato de ter dado doces para “minha família”. A menina nada desconfia do passado do pai, explica Suzana.
 

Já Daniela diz que sempre gostou muito do Ari como pai, mas hoje tem muita raiva dele. Suzana acredita que a barra mais dura já passou. “Tenho certeza de que daqui para frente as coisas vão melhorar para gente”.
 

Suzana vai esperar Luiza crescer para contar que o pai dela é também da bebezinha filha da irmã dela.
 

Traumas
 

Indagada sobre o que faria se pudesse mudar alguma coisa, Suzana disse que não teria se casado de novo. Já Daniela diz que não quer nunca se casar e que pensa somente em cuidar bem da filha, estudar, buscar uma profissão que possa cuidar de animais.
 

Daniela está no 9ª ano. Todos os dias acorda bem cedo, leva a filhinha para uma babá e segue para a escola. Termina a aula e corre para almoçar e passar o resto do dia com a filha. Suzana sai do serviço e segue para a casa, onde encontra a família.
 

A menina vai fazer terapia na Coordenadoria de Proteção Social Especial. A mãe diz que também gostaria de ter o tratamento, mas que o mais importante agora é a filha e a neta estarem bem. (*) Os nomes são fictícios

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