Mister Diversidade diz ter sido humilhado por vereadores da Capital e manda 'recado'
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O entrevistado desta semana, é ex-promotor de vendas e atual Mister Brasil da Diversidade 2013, o douradense Carlos Gabriel Freitas, de 21 anos, que venceu o concurso disputado em São Paulo entre 15 participantes. Ele embarca nesta quinta-feira para Campo Grande onde passará a morar a partir de agora.
O jovem que foi eleito no dia 12 de outubro como o homossexual mais bonito do Brasil já se posiciona como um representante da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trangêneros) e durante o bate-papo contou que sempre trabalhou em prol do respeito e da igualdade e durante seu “reinado” lutará para o fim dos preconceitos em torno da diversidade sexual, inclusive dentro de sua própria família.
Carlos Gabriel relatou ainda a humilhação que sentiu, após ouvir as declarações de alguns vereadores de Campo Grande que foram contra a entrega de uma moção de congratulação a ele e mandou um recado para alguns legisladores.
Confira na entrevista de Maryuska Pavão
DN– Há quanto tempo se dedica aos desfiles e concursos?
Carlos Gabriel - O primeiro desfile que eu fiz, não profissionalmente, eu tinha pouco mais de 4 anos, mas na cidade não há muitas oportunidades, mas ia trabalhando conforme dava, fiquei um tempo afastado, mas sempre que surgia alguma coisa participava.
DN – E esse foi o primeiro concurso que você ganhou?
CG - Sim, foi o primeiro que participei de forma nacional, e já conquistei o prêmio. E sinceramente eu superei as minhas próprias expectativas.
DN – Como foi receber o prêmio de Mister Brasil Diversidade 2013?
CG - Primeiro de tudo é uma responsabilidade muito grande, porque enquanto estava na etapa estadual foi mais uma brincadeira, não achei que ganharia, mas quando venci e fui competir com outros Estados, e representando o MS, tinha muita gente apostando, patrocinando e enquanto o resultado final saiu foi uma felicidade só. Agora estou me inteirando cada dia mais sobre as reais ações e responsabilidades de um Mister, e defendendo a bandeira LGBT e principalmente trabalhar para não ser mais um, quero ser e fazer a diferença.
DN - Qual a missão de um ‘Mister Brasil Diversidade’?
CG - Então, uma das missões é levar o nome do Brasil ao mundo e mostrar que o país já possui um espaço conquistado, ainda não é exatamente como queremos, mas temos nosso espaço e estamos conquistando o respeito. E o que queremos mostrar é que somos seres humanos normais, que temos responsabilidades sociais, pregamos o respeito, independente da nossa opção sexual. A função é essa trabalhar em ações sociais, discutir política voltada para o movimento LGBT, já que temos a inclusão na sociedade, também queremos espaço na política entre outras coisas, buscando a igualdade.
DN – Seus amigos e familiares lhe apoiaram a participar desse e de outros concursos que participou?
CG - Nossa, não tenho o que reclamar dos meus amigos, todos foram muitos parceiros e presentes, alguns juntos outros de longe, em todo o momento mandando mensagem, ligando desejando sorte.
DN – Sua família lhe apoia em sua escolha?
CG - Em relação a minha família, o que tenho a falar é sobre as minhas irmãs, elas foram fundamentais e perfeitas, pois sempre me apoiam nas minhas escolhas, um pouco antes de entrar no palco uma delas me mandou mensagem e aquilo me deu maior gás. Quanto aos meus pais, eles não comentam, e sinto que não ficam felizes, até por questões religiosas e uma mentalidade mais antiga, pois o homossexualismo na minha casa sempre foi uma barreira e desde o inicio sempre foi mais delicado. Porém a gente presa muito o respeito, então eles sempre me valorizaram como filho trabalhador, presente e que sempre fez tudo pelas irmãs. Então eles deixam de lado o Carlos Gabriel homossexual e dão valor no ser humano e filho.
DN – Mas você não sofre com a falta de apoio deles?
CG - Na verdade mesmo sem o apoio eu não vou deixar de amá-los, de manter o respeito e valorizar aeducação que me deram. Eu entendo o lado deles, mas eles sempre falaram que os filhos foram criados para o mundo. Infelizmente essa parte ainda não conquistei e essa é uma das minhas metas depois deste título. Pois após essa conquista pretendo lutar por duas coisas, pelos direitos a serem conquistados diante da sociedade e também a minha luta pessoal e passar por essas barreiras.
O preconceito existe não só com o gay, mas com o negro, o gordo, a loira e isso precisa mudar"
— Carlos Gabriel
DN - Como vê o preconceito atualmente? As pessoas ainda tem alguma barreira em se aproximar de uma pessoa que tem uma escolha sexual considerado “diferente”?
CG - Olha, em todos os lugares há preconceito, um exemplo é São Paulo, que mesmo sendo uma metrópole existem os “Skinhead” [cabeça raspada] que agredem várias pessoas, entre elas gays. Outro caso recente foi em Três Lagoas que um pai amarrou o próprio filho por ele ser homossexual e isso é um absurdo, ele é um ser humano. O preconceito existe não só com o gay, mas com o negro, o gordo, a loira e isso precisa mudar.
DN - Sendo o homossexual mais bonito do Brasil, você ainda sente muito preconceito por parte da sociedade? Já passou por alguma situação constrangedora? Pode citar qual?
CG - Olha nunca tinha passado até recentemente, quando me informaram que uma vereadora de Campo Grande queria me entregar uma moção [congratulação], por estar representando o Estado e fui muito desrespeitado e constrangido por alguns vereadores, sendo um deles religioso. E uma coisa quero deixar claro, sempre respeitei ambiente de trabalho, escola e amigos.
DN – Quanto à polêmica que foi criada sobre a entregar dessa moção, como você analisa tudo isso?
CG - Uma coisa que me indigna é que como uma Casa de Leis tem pessoas tão despreparadas, porquê assim como eu tenho responsabilidade e hoje sou representante do movimento LGBT, eles são os porta voz da sociedade, e o que se passa na cabeça desses vereadores que usaram a tribuna e desrespeitaram não apenas a mim, mas várias pessoas e famílias. E uma coisa é fato, em muitos lares evangélicos existe uma pessoa gay e isso precisa ser respeitado, pois está se tornando “normal”. E eles [vereadores] precisam respeitar, pois nunca se sabe se um dia um filho ou sobrinho não se assumirá homossexual. Com certeza ele não vai gostar de ser humilhado em um lugar público! Me senti ofendido, minha família e amigos também, pois só se levantou nesse assunto [homossexualismo], por causa dessa moção dedicada a mim.
DN – Já que estamos falando sobre os políticos, o que você tem a dizer do projeto do Deputado Federal Marcos Feliciano, que ficou conhecida como a “Cura gay”?
CG - Ridículo, porque você só procura uma cura para aquilo que é uma doença, e ser gay não é uma doença, não é contagioso, se eu tocar em você, isso não vai fazer você sair daqui e gostar de uma pessoa do mesmo sexo, não vai criar uma ferida ou uma lepra. Isso não é uma doença, pois a ciência já tentou explicar, a religião também e a população entende da forma que quer. Todas as teorias que colocam que uma pessoa é gay por causa da criação ou gay de nascença ou ainda culpa da sociedade, eu acho todas válidas. Mas impor uma cura, não, isso simplesmente é ridículo, pois não tem remédio para isso. Eu por exemplo levo a vida super bem saudável e não atrapalho a de ninguém... (risos)
DN – Você disse em uma entrevista que o prêmio de Mister Brasil é também para divulgar o MS, o que pretende fazer?
CG - Quero lutar com as armas que nós temos e as riquezas naturais é uma delas, porém não quero mostrar apenas o Pantanal, os rios e animais, pois não temos apenas isso, pois durante o concurso, uma das coisas que aconteceu foi a troca do nome de Mato Grosso do Sul por Mato Grosso e todos acham que aqui é tudo alagado que os animais são criados em nossos quintais. E não é só isso, aqui temos indústrias, fábricas, só aqui em Dourados são quatro universidades que recebem todos os anos muitas pessoas de fora. E isso é o que queremos divulgar, e mostrar que estamos crescendo e nos desenvolvendo diariamente. Depois que eu recebi o prêmio levantei duas bandeiras, a do país e do nosso Estado, pois aqui quase não temos representantes em concursos ou desfiles de moda, nós dificilmente temos espaço no meio artístico. E hoje eu fui o primeiro representante do MS a ir para um concurso desse tipo e levantar a bandeira do Estado.
DN – Como foi à receptividade dos douradenses com o anúncio do seu ‘reinado’?
CG - No inicio fiquei com medo, primeiro porque aqui não tem um grupo unido, há anos não se tem uma parada da diversidade e isso me deixou um tanto preocupado, mas quando cheguei fui super bem recebido, quando fui a um barzinho e as pessoas olhavam, logo reconheciam se aproximavam simpáticos pedindo para tirar foto e pegar autografo. Fiquei muito feliz com a forma que fui recebido.
DN – E agora quais são os planos para o futuro?
CG - Nesta quinta-feira [hoje-31] estou me mudando para Campo Grande, não sei por quanto tempo, uma das questões que me formou a mudança é a logística, pois terei muitos trabalhos e agendas a cumprir na Capital e também em São Paulo.



