Rickson diz nunca ter perdido em 450 lutas e critica UFC por exploração
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Se o termo "lenda" é usado exageradamente para lutadores com currículo e história e questionáveis para tal adjetivo, ele ganha respeito se o designado tiver o sobrenome Gracie. E recebe quase que um carimbo de autenticação para permissão do uso se o Gracie em questão for Rickson, 55 anos, aquele que é considerado por muitos o melhor da família nas artes marciais.
Ajudou junto com os familiares a difundir o jiu-jitsu pelo mundo afora e mostrar a capacidade da luta perante as outras. Antes do profissionalismo do MMA, fez históricos combates de vale tudo contra Rei Zulu. Em novembro de 83, fizeram um desafio no Maracanãzinho que foi transmitido pela Globo para provar quem era o melhor do país. Rickson venceu não só esse, mas também outro duelo que aconteceu entre ambos.
A coroação do status de melhor do mundo no vale tudo veio depois de ser o escolhido para representar a família no Vale Tudo Japan, já na década de 90 e depois da criação do UFC. Engatou seis vitórias seguidas e ampliou seu reconhecimento.
Mas, muitos anos antes, colecionou inúmeras vitórias em desafios de vale tudo que eram realizados na rua ou dentro das academias. Mas, como não existia profissionalismo, o registro dos combates são baseados em quem os vivenciou na época. Não há imagens ou fotos da imensa maioria.
Rickson diz ter pelo menos 450 vitórias sem jamais ter perdido em duelos de jiu-jitsu, sambô (luta agarrada oriunda do Leste Europeu), freestyle wrestling e vale tudo. "Uma coisa é certa; nunca perdi. Sempre fiz questão de comparecer a todos desafios e vencer por finalização", falou.
Ele carrega alguns questionamentos por não ter feito combates que o público tanto sonhou, contra nomes de peso em sua época, como o russo Fedor Emelianenko e o japonês Kazushi Sakuraba, por supostamente pedir bolsas milionárias e impossíveis de serem pagas.
Em entrevista, Rickson nega esta fama, fala sobre como vê hoje o MMA, e o apoio que tem dado ao seu filho Kron, que fará sua luta de estreia no esporte no fim do ano no evento japonês Real Fight.
É mais difícil a ansiedade nos tempos de lutador ou para ver a estreia do filho no MMA? Como está a preparação dele?
Rickson Gracie: Sem dúvida que como pai, técnico e amigo eu fico numa expectativa maior do que se fosse eu mesmo lutando. Ficamos nervosos, estamos confiantes na preparação dele; otimistas. O Kron é muito dedicado. Ele é muito focado no profissionalismo que tem que atender nos níveis de treino. Sob o ponto de vista técnico e psicológico, ele está muito bem. Eu atuo mais vendo onde posso ajudar de uma forma descontraída e mostrar pra ele a minha experiência quando ele menciona algo de treino, e aí falo ´isso aconteceu comigo´...dou direções, mas não estou diretamente ligado ao treinamento dele. Ele já sabe o que tem que fazer, e não é nenhum bicho de sete cabeças.
As técnicas do MMA atual te agradam? Acha que o jiu-jitsu ainda faz a diferença no MMA de hoje?
O jiu-jitsu sempre foi a espinha dorsal do MMA. Mas as regras atuais conduzem as lutas mais para o striking (trocação) do que para o grappling (luta agarrada) por serem rounds curtos e os juízes não deixarem a luta se desenvolver no chão. Mandam levantar se não tiver uma dinâmica. Isso faz os lutadores se tornarem mais explosivos. E agora tem essa da capacidade de perder peso pra lutar. Hoje o esporte é diferente. Eu nunca lutei MMA, lutei vale tudo, onde não tinha limite curto tempo, limite de rounds e de peso. A estratégia e capacidade de colocar em prática seu jiu-jitsu eram muito maiores.
Como você vê o lutador inserido dentro das grandes organizações de MMA? Muitos deles criticam a centralização e bolsas baixas, como o Wanderlei Silva com o UFC...
Esse aspecto profissional do MMA é muito desequilibrado no sentido de que existe um monopólio do UFC de que eles determinem as condições de tudo que vem abaixo, como TV, empresários e lutadores. Isso faz com que exista um desequilíbrio muito grande. O evento é mais importante do que o lutador. E eles brigam com os lutadores e os colocam como peça de xadrez. Isso vai acontecer até que haja uma competição entre associados, com três, quatro ou cinco grandes organizações com competitividade. O lutador está sendo mal tratado e mal pago. Eles geram fortunas e recebem um percentual insignificante. No boxe você vê uma bolsa de US$ 40 milhões pro lutador, e no MMA ela é insignificante. Às vezes um cara é bom e já se provou em vários eventos e tem que fazer contrato de US$ 20 mil pra oito lutas, o que não representa nada dentro de uma ação coorporativa grande. Não existe respeito ao lutador de uma maneira digna. Ele entra por baixo e fica por baixo sendo maltratado. E quem vai reclamar? É um monopólio, só um chefe. Nosso potencial está sendo usado de uma forma sem critério e valorização.
Como você acha que se sairia no MMA com as regras de hoje, Seria um cara top?
É difícil de fazer essa comparação, porque há muitas coisas em jogo. Eu definitivamente estaria confortável de desafiar ou aceitar uma luta com qualquer um deles numa regra do passado. Na regra atual não sei nem se meu filho conseguiria suportar a demanda física exigida como a de perder peso e esse tudo ou nada em cinco minutos. É uma outra briga, um outro animal. Nunca lutei MMA na vida, e minha estratégia no ringue era controlar o tanque de gasolina. O tempo não era um fator a se considerar, agora se tiver que fazer tudo isso em cinco minutos, a coisa muda. É completamente diferente, é outro animal. Aí estamos falando de outra composição, é como mudar da música clássica para o funk.



