Produtores se unem para barrar demarcações em Picadinha
| DOURADOSAGORA
Produtores de Picadinha, distrito de Dourados, estão mobilizados na entrada da cidade, em protesto contra demarcações de terra. Apesar do frio, o tempo esquentou no distrito. Desde a semana passada, os ânimos estão acirrados com a possibilidade dos atuais donos perderam as terras para os quilombolas.
Na sexta-feira passada, equipe técnica do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) reiniciou os estudos para possível demarcação em Picadinha, distrito de Dourados. Produtores tentaram impedir a entrada da comissão, porém sem sucesso, uma vez que o grupo escoltado pela Polícia Federal apresentou ordem judicial para dar continuidade ao processo. Na manhã de hoje, a equipe prossegue com os trabalhos, sempre escoltados pela PF.
Os moradores do local se dizem revoltados. Alguns falam em conflitos. "Por enquanto estão sendo feitos apenas estudos, porém, se perdemos a posse das nossas terras e formos injustiçados não vamos deixar a comunidade invadir nossas casas. É matar ou morrer", alerta a agricultora Ilza Decian, de 39 anos.
Ela mora com familiares no local há 25 anos, e assim como as demais 40 famílias que residem na área, afirma que comprou a terras de remanescentes de quilombolas. "Não invadimos nada. Nós compramos, pagamos e tudo o que tínhamos investimos no local. Hoje, a Picadinha fornece boa parte dos alimentos que são comercializados na área urbana", disse.
A avicultora Janice Ferreira Barbosa, de 38 anos, mora no local há 21 anos. Com escrituras em mãos ela afirma que está desesperada. "Nós compramos três hectares de terra das próprias pessoas que se dizem quilombolas. Não consigo entender que Justiça é esta onde a pessoa vende o que tem e depois quer de volta e de graça", conta, observando que com três filhos menores para sustentar, não tem para onde ir caso fique sem a terra.
O presidente da Associação de Moradores, Enildo Zanon, conta que foi para Brasília há dois anos pedir ajuda, mas sem sucesso. "Estamos sem saber o que fazer. Nunca ninguém disse se vai haver indenização, ou qualquer que seja outra forma de ressarcimento", acrescenta.
Para Nilson Decian, de 48 anos, não existe possibilidade de venda da área. "Não vamos deixar nossas terras por nada. Não fizemos nada de errado, portanto não podemos ser punidos", disse.
A área que está sendo solicitada pelo grupo quilombola é de 3.748 hectares. O edital que oficializou o início dos trabalhos foi publicado no Jornal O PROGRESSO, em abril.
O documento, assinado pelo superintendente do Incra, Flodoaldo Alves de Alencar, aponta que a equipe fará trabalhos de levantamentos de dados e informações relativas à ocupação e atualização cadastral dos imóveis rurais para trabalhos de campo visando a identificação, o reconhecimento, a delimitação, a demarcação e a titulação das terras ocupadas pelos remanescentes das comunidades de quilombos.
Em abril, as equipes foram barradas por produtores. Na época, segundo os moradores, o Incra não tinha ordem judicial para adentrar nas terras. Em maio, os fazendeiros conseguiram barrar os trabalhos através de tutela antecipada na Justiça, o que tornou sem efeito o edital. A briga judicial entre produtores e quilombolas se arrasta desde 2005.
QUILOMBOLAS
A equipe do Jornal O PROGRESSO e do site Douradosagora esteve nas áreas onde reside o grupo Quilombola, em Picadinha. Nenhum dos moradores quis falar sobre o assunto. O presidente da Associação, Deziderio Félipe, Ramão Castro de Oliveira, também não foi localizado, porém em recente entrevista ao site, ele explicou que as terras reivindicadas pertenciam a seu bisavô, Desidério Felipe. Hoje, 15 famílias vivem em 41 hectares remanescentes da Fazenda Cabeceira de São Domingos.
Na região reclamada pelos descendentes de Dezidério, são plantadas lavouras de soja e milho. As terras são consideradas uma das mais produtivas do município de Dourados, cultivadas por produtores rurais bastante antigos na região.



