Após festa do PCC, Máxima suspende entregas aos presos e revolta famílias
Moradoras de Bataguassu e Três Lagoas enfrentaram horas de viagem, custos extras e retornaram com os objetos
| BRUNA MARQUES E SOFIA LUPAES / CAMPO GRANDE NEWS
Familiares de presos do Estabelecimento Penal Jair Ferreira de Carvalho, a Máxima de Campo Grande, se revoltaram na manhã desta quarta-feira (2) após serem impedidos de entregar roupas e objetos pessoais aos internos. A restrição ocorre em meio à Operação Nêmesis, deflagrada após a divulgação de vídeos que mostram presos comemorando os 33 anos do PCC (Primeiro Comando da Capital) dentro da unidade.
Nos portões do presídio, cartazes comunicavam o cancelamento do atendimento previsto para esta quarta-feira. Em um deles, a direção atribui a medida à operação em andamento na unidade.
Entre os familiares que foram até o presídio está a aposentada Cícera Satima da Rocha, de 62 anos, que saiu de Bataguassu acompanhada da nora, Shirley de Lima, de 54 anos. Elas viajaram cerca de quatro horas de ônibus até Campo Grande para levar pertences ao filho de Cícera, preso há três anos.
Segundo a família, cada passagem custou R$ 240 para o deslocamento de ida e volta. Além disso, elas gastaram R$ 50 com transporte por aplicativo entre a rodoviária e o presídio.
Era a primeira vez que Cícera conseguia ir até a Máxima para tentar fazer a entrega. “É difícil, viemos de longe, é a primeira vez, ainda nem vi ele. Queria que desse certo, que não déssemos essa viagem perdida. É difícil para nós poder estar vindo. Se soubesse que não ia dar certo, não teria vindo. Vamos tentar entregar as coisas que trouxemos', afirmou.
Shirley, esposa do preso, disse que a família entrou em contato com a unidade antes da viagem e recebeu a informação de que poderia comparecer.
“Viemos de longe para chegar e não poder entrar. É muito difícil. Minha sogra que vem para trazer, eu vim de acompanhante, ela já é de idade. Pagamos duas passagens, tivemos gastos. Por que não avisaram? Ontem falaram que podia vir, nós ligamos', relatou.
Ela afirmou ainda se sentir constrangida com a situação. “Me sinto humilhada. Lá dentro já somos humilhados, aí chega aqui na frente também. Isso é uma humilhação.'
Outra familiar que encontrou os portões fechados para a entrega foi Aparecida Ventura, de 73 anos, que veio de Três Lagoas. O filho dela está preso na Máxima e, segundo Aparecida, há cerca de um ano ela não conseguia levar pertences para ele.
A viagem até Campo Grande durou aproximadamente sete horas. Aparecida contou que aproveitou uma consulta do marido, que faz tratamento de saúde na Capital, para tentar realizar a entrega.
“Vim para entregar, não posso vir sempre, meu marido é doente. Viemos a Campo Grande para o tratamento do meu marido e aproveitei para trazer as coisas, e não pode entrar nada. Levamos sete horas para chegar aqui, mas fazer o quê', disse.
Ela contou que havia levado roupas e objetos pessoais para o filho. “Estou triste, constrangida. Chega aqui e tem que voltar atrás com as coisas. Trouxe roupa, objetos pessoais dele. A última vez que vim trazer já tem um ano.'
Segundo Aparecida, as dificuldades de deslocamento impedem que o casal visite o filho com frequência. “Somos um casal de idosos, não conseguimos vir nem visitar ele. Só viemos hoje porque meu marido conseguiu uma vaga para fazer hemodiálise.'
O filho de Aparecida estava anteriormente no presídio de Três Lagoas e foi transferido para Campo Grande. “Ele está aqui há dois anos. Antes estava no presídio de Três Lagoas e agora trouxeram ele para cá', afirmou.
A Agepen informa que a entrega de pertences aos custodiados, prevista para esta data, precisou ser temporariamente suspensa em razão da realização do segundo dia da Operação Nêmesis.
A medida é necessária para garantir a segurança e o adequado andamento da operação, que, por sua natureza, requer sigilo e não permite a comunicação prévia de determinadas ações às pessoas externas à unidade prisional.
A Agepen esclarece que a entrega de pertences será reagendada, conforme o cronograma de atendimento de cada pavilhão. As novas datas serão informadas aos familiares oportunamente.
Operação - A suspensão da entrega de pertences ocorre após o início da Operação Nêmesis, realizada pela Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário), por meio da Polícia Penal, em conjunto com a Força Penal Nacional. A ação começou na terça-feira (1º) e teve continuidade nesta quarta-feira.
A operação inclui pente-fino na unidade, identificação de internos envolvidos em irregularidades e transferência de presos. O número de detentos transferidos e os locais de destino são mantidos sob sigilo.
A ação foi deflagrada depois que vídeos gravados dentro da Máxima circularam nas redes sociais mostrando presos reunidos em uma comemoração pelos 33 anos do PCC, na segunda-feira (31). Nas imagens, internos aparecem aglomerados e fazendo uso de cocaína.
As apurações também apontaram que materiais ilícitos encontrados no presídio teriam entrado por meio de arremessos feitos com drones. Entre os dias 25 e 29 de agosto, segundo a administração penitenciária, foram interceptadas 13 tentativas de entregas por drones na unidade.
Os presos identificados nas irregularidades estão sendo submetidos a PADIC (Procedimento Administrativo Disciplinar do Interno). A manifestação coletiva de apoio ou alusão a organizações criminosas pode ser enquadrada como falta disciplinar grave, conforme a Lei de Execução Penal, além de poder gerar responsabilização criminal dependendo da conduta individual apurada.



