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Com deputada de MT eleita, democratas impõem derrota histórica a Trump nos EUA

Lorena Betts está entre os 7 brasileiros eleitos pelo partido, que conquistou maioria na Câmara e Senado

| MSNEWS/JHEFFERSON GAMARRA / CAMPO GRANDE NEWS


Lorena Betts agradece os votos recebidos em publicação no Facebook (Foto: Reprodução)

A vitória de uma brasileira natural de Mato Grosso ganhou espaço em uma das maiores derrotas políticas de Donald Trump desde que voltou à Casa Branca. Lorena Betts, 38 anos, nascida em Comodoro (MT), foi eleita para a Câmara dos Representantes de Massachusetts, representando North Chelmsford, no Legislativo estadual nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3).

Filiada ao Partido Democrata, ela está entre os sete brasileiros eleitos ou reeleitos para cargos legislativos no país, em uma votação que também garantiu à oposição o controle das duas Casas do Congresso americano.

O resultado representa uma mudança importante na correlação de forças políticas dos Estados Unidos. Os democratas conquistaram maioria tanto na Câmara quanto no Senado, retirando dos republicanos a vantagem que permitia a Trump governar com apoio legislativo desde o início de seu segundo mandato. Com isso, o presidente deverá enfrentar dificuldades para avançar com sua agenda nos dois anos restantes de governo.

Para Mato Grosso do Sul, a eleição tem um elemento de proximidade regional: embora tenha construído sua trajetória política nos Estados Unidos, Lorena nasceu no estado vizinho de Mato Grosso e se tornou um dos destaques brasileiros no pleito. Sua eleição também representa a chegada ao Legislativo estadual de uma imigrante cuja atuação política foi impulsionada justamente pelas dificuldades enfrentadas por estrangeiros no sistema migratório americano.

Natural de Comodoro, Lorena chegou aos Estados Unidos em 2011, por meio de um programa de au pair, modalidade em que estrangeiros vivem com famílias anfitriãs e trabalham no cuidado de crianças. Na época, trabalhava como enfermeira em Holambra, no interior de São Paulo. Casada e mãe de três filhos, ela se estabeleceu em Massachusetts, estado que concentra uma expressiva comunidade brasileira.

A aproximação com a política ocorreu depois de começar a trabalhar como intérprete de português em tribunais de imigração, em Boston. A experiência permitiu acompanhar de perto as dificuldades enfrentadas por imigrantes e as consequências das políticas migratórias.

Lorena passou a atuar na organização LUCE, que atua na proteção de imigrantes contra deportações e monitoramento de atividades de fiscalização federal, onde ficou responsável pelo braço em língua portuguesa. Também fundou e liderou uma rede de voluntários dedicada a monitorar e documentar ações de órgãos de imigração e prisões de brasileiros, com o objetivo de garantir direitos constitucionais e oferecer apoio à comunidade.

Antes de disputar a primeira eleição para um cargo legislativo, ela também trabalhou como assessora parlamentar do deputado Danillo Sena, outro brasileiro eleito em Massachusetts.

Na campanha, Lorena apresentou a defesa da democracia e dos direitos dos imigrantes como parte de sua trajetória. Em seu site, afirmou que os valores recebidos dos pais, que lutaram pela democracia durante uma ditadura, influenciaram sua atuação nos Estados Unidos.

Ela também relatou ter organizado manifestações do movimento No Kings, em Chelmsford, reunindo centenas de pessoas em atos contra as ameaças à democracia atribuídas a Trump.

A candidata defendeu uma atuação parlamentar voltada a questões cotidianas das famílias, principalmente moradia acessível, custo de vida, acesso a serviços de saúde e energia limpa. Em sua apresentação, criticou o distanciamento dos políticos em relação aos problemas enfrentados pela população e prometeu ser uma representante acessível e responsável.

Após a confirmação da vitória, publicou uma mensagem nas redes sociais agradecendo aos eleitores e destacando a participação popular na campanha.

'Estou profundamente honrada e incrivelmente grata por ter conquistado sua confiança e seu voto. Esta campanha foi sobre o poder das pessoas, a importância de cada voz e o que podemos realizar quando nos unimos', escreveu.

Lorena acrescentou que pretende trabalhar diariamente para corresponder à confiança recebida, ouvir a comunidade e representar os interesses dos eleitores do 16º Distrito de Middlesex.

Sete brasileiros eleitos - Além da mato-grossense, outros seis brasileiros conquistaram mandatos legislativos nas eleições americanas. Todos são filiados ao Partido Democrata e representarão Flórida, Massachusetts, Connecticut e Nevada.

Na Flórida, Felipe Sousa Lazaballet, de 40 anos, foi eleito deputado estadual na região metropolitana de Orlando, com aproximadamente 63% dos votos. Nascido em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, ele chegou aos Estados Unidos ainda adolescente e passou anos em situação migratória irregular. Também participou da mobilização em defesa da regularização de jovens que chegaram ao país ainda crianças. Será o primeiro brasileiro eleito deputado estadual na Flórida e o primeiro imigrante abertamente gay a ocupar o cargo.

Massachusetts concentrou quatro vitórias brasileiras. Além de Lorena, foram reeleitos Danillo Sena, Priscila Sousa e Rita Mendes.

Natural de Timbaúba, em Pernambuco, Danillo Sena se apresenta como o primeiro imigrante brasileiro eleito para uma Assembleia Legislativa estadual nos Estados Unidos, em 2020. Ele chegou ao país ainda criança e foi beneficiado pelo Daca, programa criado durante o governo de Barack Obama para regularizar a situação migratória de pessoas que entraram nos Estados Unidos quando eram menores de idade.

Priscila Sousa, nascida em Ipatinga, Minas Gerais, também manteve a cadeira. Ela se mudou para os Estados Unidos aos sete anos, conseguiu o green card em 2004, aos 16, e posteriormente se naturalizou cidadã americana. Sua primeira eleição ocorreu nas eleições de meio de mandato de 2022.

Já Rita Mendes, de 42 anos, nasceu em Conselheiro Pena, também em Minas Gerais. Advogada, mudou-se para os Estados Unidos aos 12 anos, integrou o Conselho Municipal e ocupa o cargo de deputada estadual desde janeiro de 2023.

Em Connecticut, Farley Santos foi reeleito para o Legislativo municipal de Danbury, cidade que abriga uma expressiva comunidade brasileira. Ele ocupa o cargo desde 2023, chegou aos Estados Unidos aos sete anos e viveu inicialmente em situação migratória irregular. É casado e tem uma filha.

Em Nevada, Elaine Marzola conquistou mais um mandato na Assembleia estadual. Nascida no Rio de Janeiro, ela chegou a Las Vegas em 1984, ainda criança, acompanhada dos pais. É formada em Direito pela Faculdade Thomas M. Cooley, vinculada à Universidade de Michigan.

Onda azul muda cenário político americano - A eleição dos brasileiros ocorreu em meio a uma vitória ampla do Partido Democrata, movimento conhecido como 'onda azul', que atingiu diferentes níveis do poder político nos Estados Unidos.

Na Câmara dos Representantes, renovada integralmente a cada dois anos, os democratas ultrapassaram as 218 cadeiras necessárias para garantir a maioria entre as 435 vagas. Até o fechamento dos resultados apresentados, a sigla havia conquistado 228 assentos, dos quais 25 estavam anteriormente sob controle republicano.

No Senado, os democratas também conseguiram reverter a vantagem republicana. A oposição precisava conquistar quatro cadeiras líquidas para superar a composição anterior, de 53 republicanos contra 47 democratas. O partido conseguiu sete vitórias em estados como Iowa, Kansas, Maine, Carolina do Norte, Ohio, Carolina do Sul e Texas, chegando a 54 das 100 cadeiras, com duas disputas ainda pendentes.

O resultado teve peso simbólico porque algumas das vitórias ocorreram em estados tradicionalmente republicanos, onde Trump havia obtido apoio expressivo nas eleições presidenciais de 2024.

No Texas, James Talarico derrotou o procurador-geral Ken Paxton, enquanto Gina Hinojosa venceu o governador Greg Abbott. No Kansas, Adam Hamilton se tornou o primeiro democrata eleito senador pelo estado desde 1932. Na Carolina do Sul, Annie Andrews conquistou uma cadeira e se tornou a primeira mulher eleita senadora pelo estado, além de encerrar um período de vitórias republicanas que vinha desde 1998.

Também houve mudanças no Maine, onde Troy Jackson derrotou Susan Collins, que ocupava o cargo havia 30 anos, e em Iowa, estado que não elegia um senador democrata desde 2008. Em Ohio, Sherrod Brown venceu Jon Husted, enquanto Roy Cooper garantiu a vitória democrata na Carolina do Norte.

Na Geórgia, Jon Ossoff manteve sua cadeira no Senado ao derrotar o republicano Mike Collins. Em Michigan, Abdul El-Sayed venceu uma disputa apertada e se tornou o primeiro muçulmano eleito para o Senado americano.

A força democrata também apareceu nas disputas estaduais. O partido venceu 22 das 34 eleições para governador definidas até aquele momento e liderava nas duas que ainda não tinham resultado consolidado.

A mudança no Congresso representa um obstáculo direto ao governo Trump. Com maioria nas duas Casas, os democratas poderão controlar comissões, barrar indicações presidenciais para tribunais federais e eventuais vagas na Suprema Corte, além de abrir investigações sobre o presidente, seus familiares e integrantes do governo.

A oposição também pretende questionar a continuidade do financiamento da guerra no Irã e concentrar a agenda legislativa em temas relacionados ao poder de compra das famílias.

Trump, por sua vez, já sinalizou que pretende utilizar o poder de veto para bloquear propostas aprovadas pelo Congresso. Em publicação nas redes sociais, divulgou a imagem de um boné vermelho com a palavra 'veto'. Dias antes, havia antecipado que adotaria essa estratégia caso os democratas conquistassem maioria legislativa.

Um dia após as derrotas do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato, a Casa Branca publicou, nesta quarta-feira (4), uma mensagem na rede social X destacando que Donald Trump “continua sendo seu presidente'.

A publicação traz uma fotografia do republicano com expressão séria, inclinado sobre uma escrivaninha no Salão Oval. Sobre a imagem, aparece a frase: “Aviso: TRUMP AINDA É SEU PRESIDENTE'.

Na legenda, a Casa Branca acrescentou: “Grato por sua atenção sobre este assunto', expressão frequentemente utilizada por Trump em suas próprias publicações nas redes sociais.

A nova composição do Congresso toma posse em janeiro e deve transformar os dois últimos anos do mandato de Trump em um período de maior confronto entre a Casa Branca e o Legislativo.


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